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Live Earth: a Microsoft contra o aquecimento global

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Não, não é mais um programa da famigerada linha Live, da Microsoft. O Live Earth será um mega-show, promovido pela Microsoft, com a finalidade de combater o aquecimento global. A coisa é grandiosa! Haverá shows em sete países espalhados pelo mundo. Os shows, que serão no dia 7 de julho de 2007, durarão 24h, e contarão com a participação de mais de 150 artistas conhecidos mundialmente. O mais impressionante, porém, é a expectativa de público: mais de 2 bilhões de pessoas! Isso dá... Quase um terço da população mundial!

Os shows serão nos seguintes países:Live Earth Brasil.

  • Estados Unidos;
  • Inglaterra;
  • Australia;
  • Japão;
  • China;
  • África do Sul;
  • Brasil.

Isso mesmo, moçada: o Brasil está na lista! O show em terras tupiniquins será no Rio de Janeiro. Os artistas ainda não foram definidos, mas segundo o site oficial, em breve eles serão informados.

Falando em site oficial, ele já está no ar. Ficou muito bacana, bem vivo, e com direito até a música exclusiva da Madonna, chamada Hey You, disponível para download gratuitamente. A canção é bacana!

Download: Hey You, da Madonna.

Não é a primeira vez que a Microsoft usa uma música da Madonna para promover uma marca sua. O comercial de lançamento do Windows XP (relembre aqui) rolava ao som de Ray of Light, uma das músicas mais bacanas da cantora.

Alguém afim de cobrir o Live Earth no Rio de Janeiro para o WinAjuda? :) .

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Rodrigo P. Ghedin. 23 anos, paranaense, blogger, MVP Microsoft, acadêmico de Sistemas de Informação, leitor voraz, cinéfilo padawan e peladeiro de PES. Windows-user desde 1996. Powered by "PC frank" e Dell Vostro 1000, ambos rodando Windows 7 Ultimate.
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  • Este artigo é constituído de três partes. Na
    primeira, analisa-se o processo de formação do
    regime internacional de mudança climática, desde
    as negociações e a assinatura da convenção Quadro
    das Nações Unidas sobre Mudança Climática,
    no Rio de Janeiro (1992), passando pela negociação
    e a assinatura do Protocolo de Kyoto (1997),
    até a conclusão das questões pendentes do Protocolo
    na VII Conferência das Partes (COP), em
    Marrakesh (2001).
    Na segunda, analisam-se as políticas públicas
    relacionadas às emissões de carbono no Brasil, na
    década de 1990, e o posicionamento brasileiro
    quanto ao regime de mudança climática. O Brasil
    teve uma posição de liderança no processo de negociação
    da Convenção de Mudança Climática
    (1990-1992), pois sua política externa se afastava
    da posição desenvolvimentista radical predominante
    até 1988. Durante Protocolo de Kyoto
    (1996-2001), o país se opôs a compromissos de
    redução da taxa de crescimento futuro das emissões
    de carbono por parte dos países emergentes,
    ao estabelecimento de mecanismos flexibilizadores
    de mercado e à inclusão das emissões derivadas de
    mudança do uso da terra. Em maio de 1997, o
    Brasil fez uma proposta original: a criação de um
    Fundo de Desenvolvimento Limpo (FDL), que aplicaria
    multas aos países desenvolvidos que não
    cumprissem as metas de redução de emissões. A
    proposta foi apoiada pelos países em desenvolvimento
    e rejeitada pelos países desenvolvidos. Em
    outubro de 1997, os Estados Unidos e o Brasil
    elaboraram uma nova versão do FDL, que passou
    a ser chamado de Mecanismo de Desenvolvimento
    Limpo (MDL). O MDL criou a possibilidade de os
    países desenvolvidos cumprirem parte de suas metas
    de redução de emissão condicionada ao financiamento
    de projetos de desenvolvimento sustentável
    nos países em desenvolvimento.
    Na terceira parte, analisam-se as perspectivas
    futuras do Protocolo de Kyoto depois dos acordos
    nas convenções de Bonn e Marrakesh, particular-
    O REGIME INTERNACIONAL DE
    MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL
    Eduardo Viola
    RBCS Vol. 17 no 50 outubro/2002
    mente em relação à sua viabilidade com a ausência
    dos Estados Unidos.
    A Formação do regime internacional de
    mudança climática
    O regime de Mudança Climática é um dos
    mais complexos e relevantes regimes internacionais
    porque implica profundas inter-relações entre
    a economia e o ambiente global. Os principais
    instrumentos do regime são a convenção Quadro
    das Nações Unidas sobre Mudança Climática, assinada
    no Rio de Janeiro em junho de 1992, e o
    Protocolo de Kyoto, assinado em Kyoto em dezembro
    de 1997. Um dos problemas fundamentais
    da viabilidade desse Protocolo deriva do fato
    de ele ter sido aprovado no interior de uma negociação
    extremamente difícil e emergencial.
    Além disso, vários artigos-chave ficaram em suspenso,
    devendo ser discutidos em uma conferência
    posterior. Desde a IV Conferência das Partes,
    realizada em Buenos Aires, em 1998, até a VI, em
    Haia, em 2000, tem predominado um impasse na
    negociação dessas questões pendentes. O Protocolo
    de Kyoto dividiu os países em dois grupos:
    os pertencentes (membros da OECD e países do
    ex-bloco comunista do Leste Europeu) e os não
    pertencentes ao Anexo Um. Os do primeiro grupo,
    ao contrário dos do segundo, têm compromissos
    obrigatórios de emissões máximas para o
    ano 2010, ainda que os do segundo grupo possam
    tê-los em data posterior a esta.
    Os problemas ambientais globais, juntamente
    com a revolução da informação e a globalização
    econômica, contribuíram para alterar as relações entre
    os Estados (North, 1990; Haas, Keohane e Levy,
    1993; Hurrell, 1995; Haas, 1997). Para compreender
    a complexidade desses problemas é necessário não
    se restringir aos principais enfoques teóricos das relações
    internacionais – neo-realismo e institucionalismo
    liberal – e analisar quatro dimensões de clivagem
    e alinhamento – interestatal, civilizatória,
    democracia versus não-democracia, e dentro da democracia,
    liberalismo versus comunitarismo.
    Na primeira dimensão, a clássica clivagem
    entre os Estados nacionais continua sendo uma
    fonte essencial de competição e cooperação, com
    diminuição do conflito e aumento da cooperação
    (comparado com o período da Guerra Fria), devido
    à intensificação da interdependência econômica
    e tecnológica. Na ordem interestatal, os Estados
    Unidos ocupam uma posição de superpotência,
    sendo considerados hiperpotência militar e, economicamente,
    compartilham a centralidade com a
    União Européia e o Japão. Em seguida, têm-se as
    potências regionais: Rússia, China, Índia e Brasil.
    Pelo critério da eficácia e da eficiência de governabilidade,
    os Estados podem ser classificados como:
    desenvolvidos, emergentes, semifracassados e fracassados.
    A ordem interestatal é fundamental ao se
    analisar os problemas ambientais globais, na medida
    em que são os Estados as partes contratantes
    nos regimes internacionais.
    Na segunda, observa-se uma diferenciação
    entre as grandes civilizações, cuja obra de Huntington
    tornou-se referência fundamental, a saber:
    ocidental, latino-americana, eslava, japonesa,
    confuciana, islâmica, hinduísta e africana. A
    civilização ocidental representa o que poderíamos
    chamar de “vanguarda do processo civilizatório”,
    pois a integração de elementos como economia
    de mercado, individualismo, Estado de
    direito e democracia representativa produziram
    uma sociedade “superior” quanto ao domínio da
    natureza e à construção de uma tecnosfera. A civilização
    japonesa já segue plenamente o modelo
    ocidental. A civilização latino-americana é,
    atualmente, bastante heterogênea – países como
    Chile, Costa Rica, Uruguai, Brasil e México se alinham
    com a civilização ocidental e, em outro extremo,
    observa-se uma grande distância, no caso
    de Cuba, Haiti, Nicarágua, Guatemala e Honduras.
    A civilização eslava somente em 1989 iniciou
    o processo de aproximação com o Ocidente,
    contando com avanços e retrocessos. A civilização
    confuciana tende, de um lado, a uma convergência
    com o Ocidente em virtude do vetor
    tecnológico e, de outro, a um distanciamento em
    virtude do vetor sociopsicológico. A civilização
    hinduísta mantém-se muito distante da ocidental,
    na medida em que conserva o regime de castas,
    mas aproxima-se em virtude do vetor tecnológico
    e da democracia política. A civilização islâmi-
    26 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 No 50
    ca vive atualmente um processo de confronto
    com a civilização ocidental e, em menor grau,
    com as civilizações hinduísta, eslava e chinesa. A
    civilização africana depois de ter sido parcialmente
    ocidentalizada durante o período colonial
    de meados do século XIX a meados do século
    XX encontra-se em processo de regressão. A civilização
    ocidental foi, na década de 1960, o berço
    do moderno ambientalismo. A partir de então,
    houve uma expansão da discussão dos problemas
    ambientais para a civilização japonesa, na
    década de 1970, e para a latino-americana, na
    década de 1980 até hoje.
    Na terceira, tem-se a clivagem entre o mundo
    democrático (enraizado nas civilizações ocidental
    e japonesa, quase consolidado em alguns
    países da civilização latino-americana, mas ainda
    frágil em outros e nas civilizações hinduísta e eslava)
    e o mundo não-democrático (a maior parte
    das civilizações chinesa, islâmica e africana). Com
    exceção de Singapura, pode-se constatar uma forte
    relação entre democracia e expansão da preocupação
    pelos problemas ambientais.
    Na quarta, tem-se a clivagem entre liberalismo
    e comunitarismo no interior do mundo democrático.
    O liberalismo é a corrente dominante em todo
    o mundo democrático (exceto Japão) e baseia-se
    no domínio do indivíduo sobre os grupos, do mercado
    sobre a política, na meritocracia e na representação
    política com participação esporádica através
    de partidos. O comunitarismo é uma corrente
    secundária no mundo democrático (exceto no Japão,
    onde predomina) e apresenta períodos de
    grande avanço, como na rebelião estudantil de
    1968, na utopia da governabilidade por meio da
    sociedade civil mundial logo depois da Guerra Fria
    e no movimento antiglobalização de Seattle em
    Porto Alegre. Baseia-se no predomínio do grupo
    sobre o indivíduo, da política sobre o mercado (nas
    formas mais extremadas há rejeição ao mercado) e
    na alta participação política por meio de múltiplas
    estruturas associativas que podem ser mais adscritivas
    ou mais baseadas nas opções construídas individualmente.
    O ambientalismo moderno originou-
    se na vertente comunitária da democracia, mas
    com o passar do tempo, uma parte importante dele
    se converteu à vertente liberal.
    Se até a década de 1970 todos os Estados importantes,
    agindo em interesse próprio, eram capazes
    de solucionar, seja pela conciliação, seja pela
    imposição, a maioria de suas disputas com outros
    Estados sem prejuízo de sua soberania, a partir da
    década de 1980 ocorreu uma perda diferenciada
    de autonomia de quase todos eles (com a única
    exceção dos Estados Unidos) e uma necessidade
    cada vez maior de cooperação internacional, o
    que exige muita flexibilidade nas negociações. O
    benefício coletivo exige cada vez mais ações que
    contrariam os interesses de cada Estado individual.
    A formação de regimes internacionais econômicos,
    de segurança e ambientais passa a impor
    algumas restrições à soberania da grande
    maioria dos Estados (Chayes e Handler Chayes,
    1995; Keohane e Miller, 1996). Existe, ao mesmo
    tempo, uma certa transferência de poder do Estado
    para instituições supranacionais que vão constituindo
    novos centros de autoridade e para corporações
    transnacionais (Risse-Kappen, 1995; Comission
    on Global Governance, 1995; Castells,
    1996; Rosenau, 1997; Keck e Sikkink, 1998).
    Os problemas de mudança climática estão
    vinculados aos bens comuns/coletivos globais
    (Kaul, Grunberg e Stern, 1999). A atmosfera, por
    exemplo, é um bem público global, desde que
    sua utilização por um ator não exclua a possibilidade
    de utilização por outro. Ela tem, no entanto,
    uma capacidade limitada em absorver poluição
    ou emissões de gases de efeito estufa sem
    provocar alterações na saúde humana ou no clima.
    Em vista dessa limitação, as cúpulas e as convenções
    internacionais da última década atribuíram
    à atmosfera o estatuto de “preocupação comum
    da humanidade”, e os problemas do seu
    uso foram consensualmente vinculados à construção
    de regimes internacionais (McCormick, 1989).
    Existem duas concepções gerais sobre os regimes
    ambientais internacionais: uma formal
    (sentido estrito) e outra substantiva (sentido amplo)
    (Krasner, 1983; Keohane, 1983; Porter e
    Brown, 1996; Hurrell, 1995; Soroos, 1997). De
    acordo com ambas as concepções, tais regimes
    são um sistema de regras, explicitadas num tratado
    internacional pactuado entre governos, que
    regulam as ações dos diversos atores sobre o as-
    O REGIME INTERNACIONAL DE MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL 27
    28 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 No 50
    sunto. Contudo, a visão mais abrangente também
    considera os regimes ambientais um vetor tecnológico
    e cultural em desenvolvimento favorável à
    proteção de um bem coletivo global (Sand, 1992;
    Gehring, 1994; Norhaus, 1994; Young, 1997). Ou
    seja, o regime de mudança climática, segundo
    esta concepção, não se restringe aos acordos estabelecidos
    na Convenção do Rio de Janeiro e no
    Protocolo de Kyoto, mas prevê também a necessidade
    de uma consciência pública favorável a estabilizar
    o clima e de um vetor tecnológico que
    favoreça o investimento em tecnologias não intensivas
    em carbono. Neste trabalho utilizarei o
    conceito de regime ambiental internacional em
    sentido amplo.
    A comunidade científica tem um papel-chave
    em relação a essas questões, pois quando a
    grande maioria de cientistas concorda no diagnóstico
    de um problema e é eficiente em comunicálo
    ao público em geral e aos decisores, cria-se
    aquilo que denominamos “comunidade epistêmica”,
    adquirindo, então, peso internacional (Haas,
    1992). A constituição do Painel Intergovernamental
    sobre Mudança do Clima (IPCC), em 1988, deu
    início ao processo de análise e avaliação dos efeitos
    da mudança climática que foi traduzido politicamente
    na constituição do Comitê Negociador
    Internacional (INC) para uma Convenção sobre
    Mudança do Clima. Durante toda a década de
    1990, o IPCC forneceu subsídios fundamentais para
    a condução das negociações no âmbito da Convenção
    e tem assumido um papel de referência na formação
    da opinião pública internacional sobre a
    questão da mudança climática. O último relatório
    do IPCC (janeiro de 2001) estabeleceu o fim da incerteza
    científica prévia sobre a mudança climática.
    A temperatura média da Terra poderá subir de 1,5
    grau até 6 graus, até o ano 2100, com impactos gigantescos
    sobre os ecossistemas naturais, a agricultura,
    as estruturas urbanas, as regiões costeiras e a
    saúde humana. Fenômenos climáticos locais/regionais
    extremos (secas mais fortes e prolongadas, ondas
    de calor mais intensas, inundações mais severas,
    tormentas e furacões mais fortes) já ocorrem
    com mais freqüência desde meados da década de
    1990. Os países, em geral, têm sofrido com essas
    alterações: aumento de mortalidade nos países de
    renda baixa (enchentes na África Austral e Norte da
    Índia, furacões em Bangladesh e América Central,
    seca na Ásia Central etc.), destruição de patrimônio
    em países de renda alta (tormentas e enchentes na
    Europa Ocidental, seca no Meio Oeste e queimadas
    no Oeste dos Estados Unidos etc.), prejuízos semelhantes
    em graus variáveis nos países de renda média
    (enchentes na Venezuela e na província de
    Buenos Aires etc.).
    A comunidade científica dos climatólogos,
    que durante a década de 1980 formulou a teoria
    do aquecimento global, é constituída em aproximadamente
    dois terços por cientistas que trabalham
    em instituições norte-americanas. Os Estados
    Unidos, sob a recém-iniciada presidência de
    Bush, assumiu um papel de liderança nas negociações
    que levaram à formação do Painel Intergovernamental
    sobre Mudança do Clima (IPCC) e
    à convocação da UNCED, em 1989 (Weiss Brown
    e Jakobson, 1998). Durante a campanha eleitoral
    de 1988, Bush tinha-se distanciado de Reagan,
    afirmando que o aquecimento global seria uma
    das grandes prioridades de seu governo. Travouse
    uma disputa interna entre duas facções do governo:
    os globalistas, liderados por William Reilly,
    diretor da Environmental Protection Agency (equivalente
    ao cargo de ministro do meio ambiente),
    e os conservadores, liderados por John Sununu,
    chefe da Casa Civil. Desde meados de 1988 (verão
    mais quente do século no país) até julho de
    1990, a questão do aquecimento global ocupou
    uma posição destacada em todas as pesquisas de
    opinião pública. A invasão do Kuwait pelo Iraque,
    em agosto de 1990, e a subseqüente Guerra do
    Golfo desviaram a atenção e arrefeceram as opiniões
    pró-ambiente dos norte-americanos. A crise
    do Golfo mostrou claramente a intensa dependência
    do petróleo da economia norte-americana.
    Além disso, ficou evidente que a economia norteamericana
    é “carbono intensiva”, ou seja, metade
    da energia elétrica é produzida a partir de termoeléctricas
    que queimam principalmente carvão e,
    secundariamente, petróleo; outra metade é produzida
    por usinas hidroelétricas, nucleares, termoeléctricas
    de gás natural e, de maneira reduzida,
    por usinas eólicas; o automóvel individual (de tamanho
    médio maior que no resto do mundo) é o
    meio generalizado de transporte de passageiros.
    Diminuir as emissões de carbono teria custos significativos
    em curto prazo. Entre o medo de uma
    mudança climática incerta e num futuro distante e
    a perspectiva imediata de queda no padrão de
    vida material, a maioria dos norte-americanos inclinou-
    se em favor da manutenção de seu padrão.
    Essa mudança teve reflexos imediatos no interior
    do governo Bush. A partir de agosto de
    1990, os conservadores triunfaram em relação aos
    globalistas. Nos PREPCOMS que negociaram a
    convenção de mudança climática nos anos de
    1990-1992, a posição norte-americana foi cada
    vez mais contrária ao estabelecimento de metas
    de redução da emissão de gases de efeito estufa,
    com o argumento de que havia muitas incertezas
    a respeito do assunto e que, portanto, era necessário
    uma maior investigação científica; e cada
    vez mais favorável à promoção de sumidouros de
    carbono por meio da plantação maciça de florestas.
    Apenas os países escandinavos, a Holanda e
    a Alemanha tinham posições definidas em favor
    de estabelecer metas obrigatórias de redução
    (Rowlands, 1995; O’Riordan, 1996). O texto final
    da United Nations Framework Convention on Climate
    Change (UNFCCC) estabeleceu um compromisso
    genérico para os países pertencentes ao
    Anexo Um: o ano base das emissões seria 1990
    e, em 2000, as emissões desses países não deveriam
    ser superiores as de 1990. Para os países
    não pertencentes ao anexo, a convenção estabeleceu
    o compromisso de se elaborar inventários
    nacionais de emissões de carbono.
    Durante a campanha eleitoral de 1992, logo
    depois da Conferência realizada no Rio de Janeiro,
    Clinton e Gore articularam uma posição claramente
    globalista e prometeram, aproveitando o
    impulso favorável da opinião pública norte-americana,
    uma ação firme e de liderança para enfrentar
    o problema do aquecimento global. Na I
    Conferência das Partes da Convenção de Mudança
    Climática (Berlim, março de 1995), o governo
    Clinton assumiu uma posição de liderança no sentido
    de estabelecer metas obrigatórias de redução
    para os países desenvolvidos e metas de redução
    da taxa de crescimento futuro das emissões para
    os países emergentes. O Brasil teve, nessa convenção,
    um papel importante ao argumentar que,
    numa primeira fase, não seria apropriado o estabelecimento
    de compromissos por parte dos países
    em desenvolvimento, e, durante a discussão,
    conseguiu o apoio do Japão e de vários países europeus,
    o que isolou a posição norte-americana
    em relação a esta questão. Na II Conferência das
    Partes (Genebra, 1996), a delegação norte-americana
    liderada pelo subsecretário de Estado para
    Assuntos Globais, Tim Wirth (senador ambientalista
    de Colorado), afirmou novamente a urgência
    de se negociar metas obrigatórias de redução de
    emissões de efeito estufa, introduzindo, pela primeira
    vez, a idéia de cotas comercializáveis de
    emissão de carbono, que serviriam como um mecanismo
    flexibilizador complementar na redução
    de emissões entre os países do Anexo Um
    (Grubb, 1999). Esta idéia baseava-se na experiência
    com as cotas comercializáveis de emissão de
    enxofre e material particulado entre as usinas elétricas
    por bacias aéreas (Milner, 1997), implementada
    há quatro anos no país e que tinha se mostrado
    muito mais efetiva do que os clássicos mecanismos
    de comando e controle na redução de
    emissões. A proposta de Wirth foi, em termos gerais,
    rejeitada por três razões: primeiro, em virtude
    da falta de compreensão do modelo, já que nenhum
    outro país havia experimentado tal mecanismo;
    segundo, havia um princípio contra o uso
    de mecanismos de mercado para a proteção ambiental;
    terceiro, porque a proposta norte-americana
    incluía compromissos por parte dos países
    emergentes de reduzir a taxa de crescimento das
    emissões. Finalmente, a COP II concordou em iniciar
    imediatamente as negociações para estabelecer
    um Protocolo que tornaria obrigatória a redução
    de emissões por parte dos países pertencentes
    ao Anexo Um, e que tentaria estudar formas
    de estabelecer mecanismos complementares.
    Entre a segunda e terceira conferência das
    Partes (Genebra, junho de 1996, e Kyoto, dezembro
    de 1997) houve uma série de negociações
    para a formulação do Protocolo de Kyoto. A posição
    norte-americana seguiu três linhas principais:
    o estabelecimento de metas baixas (menos de 5%)
    de redução de emissões até 2010, tendo como ano
    base 1990; o estabelecimento de metas de redu-
    O REGIME INTERNACIONAL DE MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL 29
    ção da taxa de crescimento das emissões por parte
    dos países emergentes; e o estabelecimento de
    mecanismos de mercado que flexibilizassem as
    metas, particularmente as cotas comercializáveis
    de emissão entre os países do Anexo Um. Quanto
    à primeira meta, os Estados Unidos obtiveram
    sucesso em relação aos europeus, que queriam
    compromissos de redução mais contundentes.
    Quanto à segunda, foram derrotados, como já haviam
    sido nas conferências de Berlim e Genebra.
    Em relação à terceira, condicionaram a assinatura
    do acordo ao compromisso de flexibilização, contando
    com forte apoio do Canadá, da Austrália, da
    Rússia e dos países do Leste Europeu, membros
    do Anexo Um (Cooper, 1998).
    Em julho de 1997, durante a negociação do
    Protocolo de Kyoto, o Senado norte-americano,
    com maioria republicana, posicionou-se contrário
    à ratificação do protocolo, a menos que os países
    emergentes assumissem compromissos de diminuir
    sua taxa de crescimento futuro de emissões
    (Agrawala e Steinar, 1999). Apesar disso, o governo
    Clinton assinou o protocolo, mas não o enviou
    ao Senado para ratificação. Começou, entretanto,
    a articular politicamente no sentido de obter os
    compromissos de atenuação no crescimento das
    emissões por parte de alguns países emergenteschave
    (Lippman, 2000; Jacoby e Primm, 1998). A
    diplomacia norte-americana foi bem-sucedida somente
    em relação à Argentina e à Coréia do Sul.
    O regime de mudança climática exige sempre
    a presença de pelo menos um ator que impulsione
    o processo e que seja capaz de liderar e
    sustentar o regime. Pela sua importância na economia
    e no ambiente global e pela eficiência de
    sua governabilidade, apenas três países apresentam
    este potencial em primeira instância (Estados
    Unidos, União Européia e Japão). O Estado Europeu
    supranacional, neste caso, tem uma capacidade
    de atuação muito maior do que os Estados nacionais.
    Países como China, Índia, Rússia, Canadá,
    Indonésia e Brasil têm se revelado muito importantes
    em todo o processo de decisão, apesar de
    não constituírem um potencial de liderança
    (Grubb, 1999). Enfim, a participação desses nove
    países é condição básica para o funcionamento do
    regime de controle de emissões. Os dados, a seguir,
    são indicadores econômicos desses países:
    • Proporção na população mundial (1999): China
    21%, Índia 16,5%, União Européia 6,3%, Estados
    Unidos 4,6%, Indonésia 3,5%, Brasil 2,8%,
    Rússia 2,4% e Japão 2,1%.
    • Proporção na parcela do PIB mundial (por poder
    de compra, em 1999): Estados Unidos
    21,3%, União Européia 20,5%, China 10,2%, Japão
    8%, Índia 5,4%, Brasil 2,9%, Rússia 2,4%,
    Canadá 2,3%, Indonésia 1,3%.
    • PIB per capita (poder de compra em 1999): Canadá
    31.000 dólares, Estados Unidos 29.200 dólares,
    União Européia 24.000 dólares, Japão
    23.600, Brasil 6.500, Rússia 6.200, China 3.100,
    Indonésia 2.400 e Índia 2.100.
    • Parcela nas emissões mundiais de carbono
    (1999): Estados Unidos 24,5%, União Européia
    14,5%, China 13,5%, Japão 6%, Rússia 5%, Índia
    4,5%, Canadá 2,5%, Brasil 2,5% e Indonésia 1,5%.
    • Parcela da área florestal mundial (1995): Rússia
    22%, Brasil 16%, Estados Unidos 6%, Canadá
    5%, China 4%, Indonésia 3%, União Européia
    2%, Índia 2%, Japão 0,7%.
    • Taxa de desmatamento médio anual (1990-
    1998): Indonésia 1,1%, Brasil 0,5%, China 0,1%,
    Rússia 0,1%, Índia 0,05%, União Européia 0%,
    Japão 0%, Canadá 0%, Estados Unidos aumenta
    sua área com florestas 0,3% ao ano.
    Os Estados Unidos, como se pode observar,
    é o único país que está incrementando anualmente
    uma área florestada e, por isso, tem defendido
    a inclusão dos sumidouros de carbono no cálculo
    total de emissões (Brown, Flavin e French, 2001).
    Os conflitos de interesse entre os países desenvolvidos,
    emergentes e pobres é um dos fatores
    determinantes na dinâmica das negociações
    no processo de estabelecimento do regime de
    mudança climática (Young, 1997; Claussen e
    McNeilly, 1998; Mueller, 1999). Nas democracias
    existe uma forte disputa interna de interesses e de
    valores, o que faz com que a posição de um país
    num momento específico da negociação resulte
    de uma coalizão que oscila de acordo coma definição
    da política do país no cenário internacional.
    As alianças e os blocos que se formaram desde
    30 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 No 50
    a Conferência no Rio de Janeiro, em 1992, resultaram
    de disputas acirradas entre os países, de clivagens
    e de alinhamentos nacionais, internacionais e
    transnacionais (Viola, 1998). O regime de mudança
    climática foi liderado pelos Estados Unidos e pela
    União Européia entre 1989 e 1991; pela União Européia
    entre 1991 e 1995; pelos Estados Unidos,
    União Européia e Japão entre 1995 e 1997; e, desde
    1998, apenas pela União Européia. Os principais
    blocos formados (desde 1992) são (Clark, Van Eijndoven
    e Jaeger, 1998; Soroos, 1997; Vogler e Imbler,
    1996; Wasson, 1997; Schelling, 1997):
    • Países desenvolvidos com alta intensidade de
    carbono por unidade de PIB e per capita (Estados
    Unidos, Canadá e Austrália). Nesses países,
    ocorre uma divisão de forças clara entre, de um
    lado, neoliberais e nacionalistas – contrários ao
    regime de mudança climática –, e, de outro, neosocialdemocratas
    e verdes – respectivamente, favoráveis
    de maneira moderada ao regime e fortemente
    favoráveis ao regime (Inglehart 1997).
    Os Estados Unidos encontram-se numa posição
    delicada, pois sua taxa de emissão de carbono
    em 1999 foi 14% superior à de 1990 (ano base
    para todos os países), e o compromisso assumido
    em Kyoto é diminuir 7% até 2010. No Canadá
    há uma defasagem similar.
    • Países desenvolvidos com média intensidade de
    carbono por unidade de PIB e per capita, orientados
    a assumir responsabilidades globais (Alemanha,
    Reino Unido, Holanda, Suécia, Dinamarca,
    Finlândia, França, Bélgica, Luxemburgo,
    Áustria e Itália). Nesses países predominam os
    neosocialdemocratas, fortemente favoráveis ao
    regime de mudança climática (Guidens 1998).
    Também os verdes constituem uma minoria forte,
    que pressiona no sentido de fortalecer o regime.
    O restante da União Européia (Espanha,
    Portugal, Grécia e Irlanda), embora tenha populações
    menos dispostas à redução de emissão,
    apóia a posição dos primeiros devido às compensações
    recebidas dentro da União. Reino Unido,
    Alemanha, Dinamarca e Suécia são os únicos
    países do Anexo Um que tinham, em 1999, emissões
    compatíveis a atingir os compromissos estabelecidos
    para 2010.
    • Países desenvolvidos com média intensidade
    de carbono, que têm dificuldades em reduzir
    sua emissão, seja porque já haviam reduzido
    bastante suas taxas antes de 1990 (Japão, Nova
    Zelândia, Noruega), seja porque possuam uma
    opinião pública com baixa responsabilidade
    global (Suíça, Islândia). O Japão assumiu o
    compromisso de reduzir as emissões em 6% até
    2010, mas, em 1999, apresentou uma taxa 4%
    mais altas.
    • Países pertencentes à ex-União Soviética que
    sofreram uma drástica redução nas emissões de
    carbono (entre 40% e 60% mais baixas, em
    1999, comparadas com 1990) pelo colapso da
    economia (Rússia, Ucrânia, Bielo-rússia, Bulgária,
    Romênia) e, em conseqüência, têm créditos
    no conjunto de compromissos assumidos. Nessas
    sociedades, predominam os nacionalistas
    ou neoliberais com posições favoráveis ao regime
    de mudança climática desde que seus respectivos
    países sejam favorecidos a médio prazo
    (até 2010/2020, aproximadamente) por meio
    do mecanismo de comércio de cotas, mas não
    apóiam políticas públicas nacionais que pretendam
    diminuir a intensidade de carbono de suas
    economias, muito alta por unidade de PIB. Já
    os neosocialdemocratas, presença minoritária
    com relativa força na Rússia, na Ucrânia e na
    Romênia, são favoráveis a políticas orientadas a
    diminuir moderadamente a intensidade em carbono
    da economia.
    • Países exportadores de petróleo (Arábia Saudita,
    Kuwait, Irã, Iraque, Emirados Árabes, Argélia,
    Líbia, Venezuela, Indonésia e Nigéria), com
    alta intensidade de carbono por unidade de PIB
    e alguns também per capita. Nesses países predominam
    os neoliberais, os nacionalistas, ou as
    coalizões entre estas facções, com posições
    neutras ou contrárias ao regime de mudança
    climática. Em algumas sociedades, como na Venezuela,
    constitui uma força política importante
    a presença minoritária dos neosocialdemocratas,
    que apóiam moderadamente o regime.
    • Países emergentes com média intensidade de
    carbono por unidade de PIB derivada da matriz
    energética predominantemente de carvão e/ou
    O REGIME INTERNACIONAL DE MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL 31
    petróleo (China, Índia, África do Sul e México)
    ou do excessivo desmatamento (Brasil, Tailândia,
    Malásia e Filipinas). Esses países, como um
    todo, apóiam os compromissos firmados no
    Protocolo de Kyoto em função dos benefícios
    imediatos advindos da implementação do Mecanismo
    de Desenvolvimento Limpo. No entanto,
    há diferenças de opinião entre os países-chave
    deste grupo. Na China e na Índia predominam
    as coalizões entre nacionalistas e neoliberais,
    contrários a assumir os compromissos de limitação
    das emissões de carbono até aproximadamente
    2030. Eles são favoráveis ao regime somente
    em virtude da perspectiva de ganho com
    a implementação do Mecanismo de Desenvolvimento
    Limpo. Contudo, na Índia, por exemplo,
    existem fortes minorias verdes, favoráveis ao
    adensamento do regime de mudança climática.
    No Brasil e no México predominam coalizões
    entre neosocialdemocratas e neoliberais (com
    apoio de setores nacionalistas), moderadamente
    favoráveis ao regime. No Brasil, em particular,
    há uma importante minoria verde favorável
    a uma diminuição drástica do desmatamento na
    Amazônia (responsável por, aproximadamente,
    1,8% das emissões globais de carbono, ao passo
    que o restante da economia brasileira produz
    apenas 0,7% das emissões globais), a assumir
    compromissos voluntários de redução da taxa
    de crescimento futuro das emissões e a adensar
    o regime de mudança climática.
    • Países emergentes com baixa intensidade de
    carbono (Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica,
    Coréia do Sul e Hungria). Igualmente ao grupo
    anterior, existe um apoio genérico ao Protocolo
    de Kyoto, em função do MDL. Nesses países,
    predominam coalizões entre neoliberais e neosocialdemocratas,
    moderadamente favoráveis
    ao regime. Além disso, os neosocialdemocratas
    são favoráveis a compromissos de redução por
    parte dos países emergentes. Em muitos desses
    países há uma presença minoritária dos verdes
    muito ativa que defende o adensamento do regime
    de mudança climática.
    • Países pobres (África subsahariana, Bangladesh,
    Bolívia, Honduras, Guatemala etc.), onde todos
    os setores da sociedade são favoráveis ao adensamento
    do regime tanto porque implica ganhos
    consideráveis advindos do Mecanismo do Desenvolvimento
    Limpo quanto porque dificilmente teriam
    compromissos de redução antes de 2050.
    • Pequenos Estados-ilhas (Fiji, Jamaica, Malta
    etc.), muito vulneráveis à mudança climática e
    onde o conjunto da sociedade é fortemente favorável
    ao adensamento do regime.
    Durante as conferências das Partes posteriores
    a Kyoto (Buenos Aires, 1998; Bonn, 1999 e
    Haia, 2000), houve quatro coalizões principais de
    negociação: União Européia, Grupo Guarda-chuva
    (formado pelos países dos grupos 1, 3 e 4),
    G77/China, formado pelos países dos grupos 5, 6,
    7 e 8 (em algumas questões, dois subgrupos divergiram
    do G77/China – países exportadores de
    petróleo e países mais pobres), e, por fim, Aliança
    das Pequenas Ilhas (Viola, 2001).
    A seguir, apresentarei um quadro da conjuntura
    de forças estabelecida entre os grupos durante
    as conferências de Bonn e Haia.
    O Grupo Guarda-chuva deu grande apoio
    aos mecanismos flexibilizadores (Comércio de Cotas
    de Emissão e Implementação Conjunta entre
    os países do Anexo Um, e Mecanismo de Desenvolvimento
    Limpo entre todos os países), contra a
    posição da União Européia. No geral, a posição
    dos países foi bastante variada e, muitas vezes,
    oportunistas. O Brasil apoiou o Mecanismo de
    Desenvolvimento Limpo (inclusive porque este
    mecanismo teve como base uma proposta originalmente
    brasileira de junho de 1997), alinhandose
    ao Grupo Guarda-chuva, mas tendeu a limitar
    a ação do Comercio de Emissões e da Implementação
    Conjunta, aproximando-se, então, da posição
    da União Européia.
    O Grupo Guarda-chuva apoiou de maneira
    incisiva a contabilidade de sumidouros de carbono
    (florestas, manejo do solo etc.) como dedução
    dos compromissos de redução de emissões, contra
    a União Européia. Os demais países dividiramse
    entre os dois grupos, além daqueles que permaneceram
    em uma posição neutra. O Brasil
    apoiou a União Européia, mas a maioria dos países
    latino-americanos se alinhou com o Grupo
    Guarda-chuva.
    32 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 No 50
    Os países do Grupo Um, apoiados em graus
    variáveis pelos países dos Grupos 2 e 3, propuseram
    a necessidade de os países emergentes assumirem
    compromissos voluntários de redução da
    taxa de crescimento futuro das emissões, contra
    os países dos Grupos 5, 6 e 7 (exceto Argentina e
    Coréia do Sul).
    O G77/China e a Aliança de Pequenas Ilhas
    propuseram um amplo pacote de transferência livre
    de tecnologias limpas dos países desenvolvidos
    para os em desenvolvimento, contra os países dos
    grupos 1, 2 e 3, que mantiveram uma posição mais
    branda, propondo um pacote mais reduzido. O Brasil
    exerceu, nesta questão, um papel de liderança.
    Os países exportadores de petróleo, liderados
    pela Arábia Saudita, defenderam a possibilidade de
    serem compensados pelas eventuais quedas nas receitas
    de exportação, contra o resto do mundo.
    A União Européia propôs um amplo regime
    de sanção para aqueles que não cumprissem seus
    compromissos, contra o Grupo Guarda-chuva,
    que apresentou um regime menos radical (Weiss
    Brown e Jacobson, 1998). O Brasil, neste caso,
    apoiou a União Européia.
    No final da Conferência de Haia houve certo
    consenso nas propostas relativas a compromissos
    voluntários, ao regime de sanções e à transferência
    de tecnologia que seriam discutidas na VII
    Conferência das Partes, em novembro de 2001. Os
    países exportadores de petróleo renderam-se ao
    resto do mundo na questão das compensações de
    receitas de exportação, e chegou-se a um acordo
    próximo da posição do Grupo Guarda-chuva com
    relação ao papel dos mecanismos flexibilizadores.
    O ponto que precipitou o fracasso das negociações
    foi o teto para a contabilidade dos sumidouros
    de carbono como deduções das emissões dos
    países do Anexo Um. Não houve acordo sobre a
    magnitude do teto: a União Européia, ao contrário
    do grupo Guarda-chuva, só aceitaria os sumidouros
    com teto bastante reduzido.
    Em janeiro de 2001, foi aprovado em Shangai
    o terceiro relatório oficial do IPCC, que alertava
    contra os riscos da mudança climática e para a
    necessidade de agir rapidamente. Esse relatório
    causou grande impacto sobre o Fórum Econômico
    que ocorreu em Davos uma semana depois.
    Neste fórum, o establishment da globalização apelou
    Bush para que, diante da nova certeza científica
    sobre a mudança climática, assumisse uma
    posição de liderança na negociação final de ratificação
    do Protocolo de Kyoto. No core do governo
    Bush, o secretário do Tesouro, O’Neill, e o secretário
    de Estado, Powel, assumiram uma posição
    favorável, porém moderada, enquanto o vicepresidente,
    Cheney, a assessora de Segurança Nacional,
    Rice, e o secretário de Energia, Abraham,
    foram definitivamente contrários à ratificação do
    protocolo.
    Em março de 2001, o governo Bush anunciou
    oficialmente que se retirava das negociações
    do Protocolo de Kyoto por considerá-lo inapropriado
    para lidar com a mudança climática por
    duas razões: a falta de relevância depositada aos
    mecanismos de mercado e o não estabelecimento
    de compromissos para os países de renda média
    com rápido crescimento de emissões. A saída dos
    Estados Unidos causou furor na comunidade internacional,
    mas, depois de algumas semanas de
    desorientação, a União Européia decidiu levar adiante
    as negociações para completar e ratificar o
    Protocolo.
    Em julho de 2001, em Bonn, todos os países,
    com exceção dos Estados Unidos, chegaram a um
    acordo sobre a maioria dos pontos que estavam
    pendentes desde a Conferência de Haia, em 2000.
    Para obter o apoio dos outros países do grupo
    Guarda-chuva a União Européia teve de ceder em
    vários pontos: reconhecer os créditos por seqüestro
    de carbono através do manejo das florestas e
    do solo; não colocar restrições ao uso dos mecanismos
    flexibilizadores; e aceitar um regime reduzido
    de sanções. Nessas três esferas, o acordo obtido
    ficou muito aquém daquele proposto pelo
    governo Clinton em Haia (2000) e que tinha sido
    rejeitado pela União Européia. Em outra frente,
    para conseguir o apoio ativo de países não pertencentes
    ao Anexo Um, a União Européia mobilizou
    o Canadá, a Noruega, a Suíça, a Nova Zelândia
    e a Islândia no sentido de prometer financiamentos
    adicionais (em torno de meio bilhão de
    dólares por ano) para o desenvolvimento de capacidades
    institucionais e de transferência de tecnologias
    limpas, a partir de 2005.
    O REGIME INTERNACIONAL DE MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL 33
    Depois da saída dos Estados Unidos, a posição
    negociadora da União Européia baseou-se no
    princípio de que um acordo mínimo seria melhor
    do que o encerramento do Protocolo de Kyoto. A
    arrogância de Bush transformou o Protocolo numa
    espécie carro-chefe da política exterior da
    União Européia – passou a ser operado pelos chefes
    de governo e pelos ministros das relações exteriores,
    em vez de ficar restrito aos ministérios do
    meio ambiente. E, no geral, os países passaram a
    considerar a aprovação de Kyoto um emblema em
    favor de uma ordem mundial baseada na negociação
    multilateral, em desacordo com a política unilateralista
    do governo Bush.
    Políticas públicas e sua relação com as
    emissões de carbono no Brasil e a participação
    do país nas negociações do regime
    de mudança climática
    A posição brasileira no sistema internacional
    sofreu mudanças consideráveis entre 1972 e 1990.
    Na Conferência de Estocolmo (1972), o Brasil liderou
    juntamente com a China a aliança dos países
    periféricos contrários a reconhecer a importância
    em se discutir os problemas ambientais. O
    modelo de desenvolvimento, que atingira o ápice
    em 1972, baseava-se em uma forte depleção dos
    recursos naturais – considerados, na época, infinitos
    –, em sistemas industriais muito poluentes e
    na intensa exploração de mão-de-obra barata e
    desqualificada. Entre 1950 e 1979, o Brasil era visto
    pelo sistema mundial como um país que ascendia
    ao centro. Durante a década de 1970, foi um
    dos principais receptores de indústrias poluentes
    advindas dos países desenvolvidos, devido ao
    “avanço” da consciência ambiental. Com o novo
    paradigma tecnológico (informação intensiva) que
    se foi implantando no mundo a partir de início da
    década de 1980, o Brasil passou a ter características
    pouco vantajosas para a perspectiva internacional
    de mercado: os recursos naturais clássicos
    perderam valor relativo, a tolerância para a poluição
    tornou-se um estigma e a força de trabalho
    desqualificada era incapaz de operar os novos sistemas
    produtivos. Estas são algumas causas fundamentais
    da crise e do conseqüente declínio brasileiro
    na década de 1980, além de variáveis de
    natureza estritamente política, vinculadas ao
    caráter da transição democrática e à falta de renovação
    das elites políticas. Apesar de seu extraordinário
    custo social, a crise do modelo de
    desenvolvimento da década de 1980 teve um aspecto
    benéfico, qual seja, a tomada de consciência
    da opinião pública dos problemas relacionados
    à devastação ambiental. Esta extraordinária
    mudança manifestou-se na posição do governo
    brasileiro em 1992, muito diversa da posição assumida
    em Estocolmo, vinte anos antes, e bastante
    sensível aos problemas ambientais.
    Quando Collor nomeou Lutzenberger como
    secretário de meio ambiente, em março de 1990,
    estava sinalizando uma nova responsabilidade
    ambiental que o governo brasileiro pretendia assumir.
    A súbita conversão ambientalista de Collor
    explica-se pela necessidade de ganhar a confiança
    da opinião pública dos países desenvolvidos
    para seu programa econômico neoliberal, que necessitava
    novos investimentos estrangeiros. Além
    disso, Collor também percebeu que a escolha do
    Brasil para sediar a UNCED-92 por parte da Assembléia
    Geral da ONU, efetuada poucos dias antes
    de sua eleição, lhe dava oportunidade para
    projetar a si próprio e a seu governo no cenário
    internacional (Viola, 1997).
    No primeiro ano de governo, Collor e Lutzenberger
    tomaram algumas decisões importantes
    que lhes deram credibilidade na esfera do ambientalismo
    internacional, quais sejam, prorrogação
    da suspensão de subsídios e incentivos fiscais
    para agropecuária na Amazônia, suspensão do
    programa de ferro-gusa da Amazônia oriental,
    maior monitoramento e fiscalização do desmatamento
    com queda de 50% nas queimadas em
    agosto/outubro de 1990 (comparadas com o pico
    de 1988), elaboração do macrozoneamento ecológico-
    econômico, fim do programa nuclear paralelo
    dos militares e adesão do Brasil à política
    ocidental de não-proliferação nuclear. Em conseqüência,
    Collor tornou-se um presidente confiável
    para o establishment ocidental.
    As reuniões de presidentes em torno do Pacto
    Amazônico e do Mercosul no início de 1992,
    34 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 No 50
    promovidas pelo Brasil, enfatizaram a necessidade
    de uma reforma da ordem mundial na direção
    do desenvolvimento sustentável e do reconhecimento
    de que também os países emergentes deveriam
    fazer um esforço significativo para lidar
    com os problemas ambientais globais.
    A posição do governo brasileiro no processo
    preparatório e na realização da Rio-92 baseou-se
    em dois princípios. Em primeiro lugar, de que os
    problemas ambientais globais eram relevantes e
    deveriam ser tratados de maneira prioritária pela
    comunidade internacional; em segundo, de que a
    responsabilidade se diferenciava tanto pela causa
    quanto pela solução dos problemas ambientais
    globais, o que aumentava o custo dos países ricos.
    Contudo, a operacionalização da posição brasileira
    nos PREPCOMS (até março de 1992) foi afetada
    pelas divergências entre o Itamaraty e Lutzenberger,
    que mantinha uma posição mais radical.
    Um pouco antes e durante a conferência
    (maio/junho de 1992), o governo brasileiro passou
    a implementar uma política exterior mais
    responsável quanto aos problemas ambientais
    globais, mudança iniciada em 1989: assumiu um
    papel de co-liderança durante a redação dos resultados
    da Convenção de Biodiversidade, facilitou
    o acordo na convenção de mudança climática e
    teve posições consistentes e favoráveis a compromissos
    em favor do desenvolvimento sustentável
    na Agenda 21 (Guimarães, 1994; Lafer e Fonseca,
    1994). Entretanto, a posição brasileira ficou aprisionada
    pelo velho nacionalismo ao apoiar a Malásia
    na oposição a uma convenção sobre florestas.
    Na UNCED, o Brasil assumiu uma posição
    que pode ser considerada globalista ou neosocialdemocrata,
    mesmo que inserida numa estrutura
    estatal em que ainda predomina o nacionalismo.
    A posição neosocialdemocrata foi influenciada
    por cinco fatores: 1) crise do modelo desenvolvimentista
    brasileiro na década de 1980 que produziu
    uma significativa abertura da opinião pública
    para com a idéia de desenvolvimento sustentável,
    mesmo que de forma difusa; 2) sensibilização do
    governo em relação aos problemas ambientais, já
    que o país detinha a soberania de 2/3 da maior
    floresta pluvial do mundo e havia, portanto, a necessidade
    de considerar o impacto ambiental; 3) o
    fato de a matriz energética brasileira estar fundada
    em recursos naturais renováveis (basicamente
    hidroelétrica e biomassa) num contexto em que a
    quase totalidade dos países é dependente de
    combustíveis fósseis ou de energia nuclear; 4) a
    consciência da importância da floresta Amazônica
    – grande reservatório mundial de biodiversidade
    e de apreensão de carbono – que tornava,
    conseqüentemente, a política favorável ao desmatamento
    (predominante até 1988) um consenso
    favorável a uma combinação de preservação
    com desenvolvimento sustentável; 5) pressão
    pelo compromisso com o globalismo, já que o
    Brasil era o país-sede da UNCED-92.
    O governo Cardoso sedimentou a mudança
    na política externa iniciada por Collor. Houve um
    reforço dos laços econômicos com os Estados
    Unidos, a União Européia e o Japão e abandonaram-
    se as tentativas prévias de estabelecer relações
    privilegiadas com a China, a Rússia e a Índia.
    O Brasil aliou-se com os Estados Unidos e a Europa
    na maioria dos foros multilaterais: proteção
    dos direitos humanos, dos direitos da mulher e
    dos direitos reprodutivos; proteção do direito de
    propriedade intelectual; expansão do papel do
    Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial
    e da Organização Mundial de Comércio; esforços
    internacionais para combater o terrorismo e
    o crime globalizado. Fernando Henrique Cardoso
    assinou, com muitos anos de atraso, os tratados
    de não proliferação nuclear e de controle de tecnologia
    de mísseis. De uma maneira geral, seu governo
    tem um perfil neosocialdemocrata no que
    diz respeito à inserção internacional do país, mas,
    em aspectos secundários, o Itamaraty mantém
    abordagens nacionalistas, como a continuidade de
    filiação ao Bloco G77 (com o intuito de ter apoio
    para o país se tornar um novo membro permanente
    do Conselho de Segurança da ONU), a tentativa
    de atrasar a formação da Associação de Livre
    Comércio Americana (ALCA), a crítica à Argentina,
    devido à nova aliança militar deste país
    com os Estados Unidos e a oposição à intervenção
    da OTAN em Kosovo.
    A política energética deste governo seguiu
    os seguintes eixos: privatização da geração e da
    distribuição de eletricidade; manutenção da pro-
    O REGIME INTERNACIONAL DE MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL 35
    priedade estatal da transmissão de eletricidade;
    novo modelo regulatório favorável a incrementar
    a geração termoeléctrica, baseada em gás natural,
    e a co-geração; quebra do monopólio da Petrobrás
    na produção de petróleo e abertura de novos
    campos petrolíferos pelo setor privado. A privatização
    da distribuição de energia elétrica realizouse
    segundo o que fora programado, mas a privatização
    da geração sofreu atrasos e resistências
    por parte de sindicatos e políticos nacionalistas.
    Os preços da energia elétrica continuaram relativamente
    baixos (fator importante para reduzir a
    inflação anual em um ou dois pontos percentuais,
    entre 1995 e 2000), o que desestimulou o investimento
    em geração. A construção de novas
    termoeléctricas a gás natural atrasou devido à paralisia
    decisória relativa ao modelo regulatório
    (risco cambial do gás natural importado). Como
    conseqüência dos preços relativamente baixos da
    energia, da limitada privatização das geradoras e
    do atraso na definição do risco cambial do gás, os
    investimentos em geração de eletricidade num
    contexto de expansão significativa da demanda
    foram bastante limitados. A não privatização de
    grandes geradoras, como Furnas e CHSF, dissuadiu
    novos investimentos de porte por parte de
    corporações transnacionais, pois a promiscuidade
    potencial entre o Estado e as empresas estatais
    criaria uma desvantagem competitiva. Na região
    Sul, onde a geradora Eletrosul foi comprada
    por uma empresa belga, houve novos investimentos
    privados importantes em geração. O estrangulamento
    da oferta, os níveis de precipitação
    inferiores aos normais nos últimos cinco
    anos e os erros na condução do sistema, que reduziram
    perigosamente o nível dos reservatórios,
    provocaram uma crise no abastecimento de energia
    elétrica a partir de maio de 2001. O racionamento
    implementado entre junho de 2001 e fevereiro
    de 2002 (redução de 20% do consumo)
    causou duplo impacto: de um lado, havia tanto
    espaço para aumentar a eficiência energética do
    conjunto da economia, quanto uma boa disposição
    da população para colaborar com o racionamento;
    de outro, alguns setores econômicos tiveram
    de reduzir parcialmente seu nível de atividade,
    provocando uma brusca parada na curva de
    crescimento econômico que se desenvolvia desde
    o final de 1999.
    Em 2001, o Brasil gerou mais de 90% de sua
    eletricidade a partir de fontes hídricas e continua
    ocupando um lugar de destaque na hidroeletricidade
    mundial (apenas atrás da Noruega e da Áustria).
    A expansão do consumo de petróleo e derivados
    durante a década de 1990 foi significativa devido à
    expansão do parque de automóveis e a diminuição
    drástica da produção de carros movidos a etanol.
    O plano de expansão de ferrovias e hidrovias para
    o período de 2000-2010 fará com que o aumento
    do consumo de derivados do petróleo no setor de
    cargas nos próximos anos venha a ser inferior ao
    da década de 1990. Por outro lado, a grande expansão
    das termoeléctricas na geração de eletricidade
    deverá aumentar as emissões de carbono derivadas
    do setor energético.
    A política externa do governo Cardoso no
    que se referente a questões ambientais tem tido
    posições bastante diferenciadas nos foros internacionais.
    Na Comissão de Desenvolvimento Sustentável
    da ONU, o Brasil sugeriu propostas neosocialdemocratas
    e, em contrapartida, no debate sobre
    o estabelecimento de padrões mínimos de
    proteção ambiental no comércio internacional,
    assumiu posições nitidamente neoliberais. No
    Mercosul, o país não conseguiu se tornar uma liderança
    capaz de introduzir de modo mais contundente
    a sustentabilidade ambiental na agenda
    da integração. O Protocolo Ambiental do Mercosul,
    negociado em 1996/1999, constituiu-se um
    avanço importante, embora sua assinatura tenha
    sido bloqueada no último momento por certa ambivalência
    dos setores mais conservadores do empresariado
    argentino.
    O núcleo do governo tem concebido a Amazônia
    como uma área destinada basicamente a ser
    ocupada por atividades econômicas de modo não
    seletivo, desde que não se promovam desmatamentos
    excessivos que coloque em risco a estabilidade
    do clima regional e de que haja o mínimo de
    responsabilidade nesta ocupação, como exige a comunidade
    internacional. A correlação de forças
    políticas a respeito da Amazônia se dá por uma
    coalizão entre neoliberais e nacionalistas. O crescimento
    da demanda por madeira, a existência de
    36 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 No 50
    vastos contingentes populacionais em condições
    de pobreza, e, em razão disso, uma tendência ao
    comportamento predatório, a extrema falta de habilidade
    na condução das políticas de instituições
    como o Ibama e agências ambientais estaduais e,
    por fim, a visão de desenvolvimento encerrada
    numa perspectiva de curto prazo por parte das elites
    locais têm sido as causas fundamentais do desmatamento
    na Amazônia. Em 1988, a superfície
    desmatada foi de aproximadamente 28.000 Km2,
    equivalente a 0,82% da área total da Amazônia. No
    período de 1989 a 1994, houve uma queda substancial,
    correspondente a uma média de aproximadamente
    0,40% ao ano. Em 1995, o desmatamento
    teve um novo pico, com 27.000Km2 (0,77% da área
    total), devido, em grande medida, ao crescimento
    econômico relativo à primeira fase do plano Real.
    Em 1996 e 1997, verifica-se uma nova queda, com
    uma média anual de 0,40%. A partir de 1998, ocorreu
    um novo crescimento – 0,47%, em 1998, 0,48%,
    em 1999 e 0,62%, em 2000. Assim, observa-se que
    há uma relação imediata entre o crescimento da
    economia nacional e o crescimento do desmatamento
    na Amazônia.
    Quanto às emissões de carbono, o país que
    se pretende globalizado e moderno tem sido refém
    daquilo que, em contraposição, podemos
    chamar de tradicional e marginalizado. Em 2000,
    a população brasileira era aproximadamente 2,8%
    da população mundial, com uma economia aproximadamente
    2,9% da economia mundial (PIB
    calculado por poder de compra), e as emissões
    de carbono alcançava a taxa em torno de 2,5%
    das emissões mundiais (25% advindo da indústria
    e da agricultura moderna e 75% da agricultura
    tradicional, da conversão de uso na fronteira agrícola
    e das atividades madeireiras ineficientes e
    predatórias). Cerca de 80% da população está
    vinculada a atividades produtivas que não dependem
    de altas emissões de carbono e, conseqüentemente,
    o Brasil possui uma taxa de emissão per
    capita e por unidade de PIB bem inferior à média
    mundial. Isto é, sobretudo, decorrência do
    alto peso da hidroeletricidade na matriz energética.
    Ademais, aproximadamente 20% da população
    está ligada direta ou indiretamente à agricultura
    tradicional, à conversão de uso da terra na
    fronteira agrícola e à atividade madeireira ineficiente
    e predatória, o que indica uma responsabilidade
    por emissões de carbono per capita e por
    unidade de PIB muito superiores à média mundial.
    Estas atividades econômicas representam
    menos de 10% do PIB brasileiro.
    O Estado tem sido irresponsável em relação
    ao controle do crime organizado na Amazônia, e
    isto se constitui, neste início de século, o principal
    problema para a consistência e a eficiência das políticas
    públicas na Amazônia. A postura do governo
    federal favoreceu certa conivência com o narcotráfico
    nos governos estaduais e municipais da Amazônia,
    com exceção do Acre (1999-2002), que implementou
    uma política no sentido contrário (Viola,
    1999). A intensificação da guerra civil na Colômbia
    a partir de 1997 é um dos fatores que mais promoveram
    o crescimento do narcotráfico na região amazônica.
    Esta situação agravou-se com a utilização
    em grande escala de desfoliantes biológicos contra
    as plantações de coca, a partir de 2001, por parte do
    Estado colombiano com o apoio dos Estados Unidos.
    O uso prolongado desse produto poderá ter
    conseqüências mais graves, afetando a integridade
    ecológica de uma parte da floresta. O aumento exponencial
    do consumo de drogas ilegais no país
    também estimula o narcotráfico na Amazônia e em
    outras regiões do país, o que confere ao Brasil um
    lugar de destaque no ciclo global da cocaína (plantação
    de coca, refino, distribuição local/mundial e
    consumo). Apenas o plantio da coca ainda está ausente
    do território brasileiro.
    A contraposição, já aludida, entre dois brasis,
    um globalizado e moderno e outro tradicional e
    marginalizado é um dos grandes paradoxos de
    nossa época. Tal paradoxo pode ser explicado, do
    ponto de vista econômico e ecológico, pelo fato
    de a economia brasileira ter sido, durante mais de
    quatro séculos, pautada pelo desmatamento, e,
    agora, passar a reprimir queimadas significa não
    só romper com uma tradição, mas também golpear
    interesses econômico-sociais, mesmo que de
    pouca importância no presente. O custo econômico
    da redução da agricultura de queimada, da
    conversão irracional de uso na fronteira agrícola e
    das atividades madeireiras ineficientes seria relativamente
    pequeno. Para isso seria necessário:
    O REGIME INTERNACIONAL DE MUDANÇA CLIMÁTICA E O BRASIL 37
    1. Políticas sociais que melhorem o nível educacional
    e acelerem a distribuição de terras e de
    tecnologia complementar entre a população
    que hoje depende da agricultura tradicional e
    da conversão do uso da terra.
    2. Políticas de controle sobre as atividades madeireiras
    ineficientes e predatórias acompanhadas
    de estímulo para convertê-las em atividades eficientes
    e relativamente sustentáveis.
    3. Atuação coordenada do Poder Judiciário, do
    Ministério Público, da Polícia Federal e das Forças
    Armadas para fortalecer o Estado de Direito
    na Amazônia.
    A atuação do Brasil durante a negociação do
    Protocolo de Kyoto (1996-2001) orientou-se pela
    definição do interesse nacional segundo quatro
    dimensões principais: 1) afirmar o direito ao desenvolvimento
    como um componente fundamental
    da ordem mundial, dando continuidade à política
    externa brasileira; 2) promover uma visão do
    desenvolvimento associada com a sustentabilidade
    ambiental, em correspondência com o grande
    crescimento da consciência ambiental no país e
    sua tradução em políticas públicas nacionais e estaduais;
    3) promover uma posição de liderança do
    Brasil no mundo, em correspondência com o crescimento
    do prestígio internacional do país durante
    o governo Cardoso; e 4) evitar que o uso das
    florestas seja objeto de regulação internacional
    para não correr riscos de que outros países possam
    questionar o uso econômico da Amazônia. É
    importante salientar que a entrada das florestas no
    regime mundial de clima não foi percebida como
    uma ameaça à soberania nacional por outros países:
    Estados Unidos, Canadá, Rússia, Austrália e
    Costa Rica, entre outros, promoveram com intensidade
    a regulação internacional das florestas. As
    características específicas do posicionamento brasileiro
    nas diversas questões do Protocolo de Kyoto
    são assinaladas a seguir.
    A delegação brasileira esteve sempre sob o
    comando do Ministério da Ciência e Tecnologia (o
    presidente da Agência Espacial Brasileira, Meira
    Filho, teve um papel fundamental) nos aspectos
    substantivos e do Itamaraty nos aspectos relacionados
    ao processo negociador. Até 1999, a presidência
    da República não considerou a negociação
    do Protocolo uma questão importante sobre a
    qual deveria interferir. A definição do posicionamento
    brasileiro ficou muito restrita entre 1996 e
    1999, quase sem a participação de governos estaduais,
    empresários ou ONGs. A partir de 2000, a
    arena de definição ampliou-se com a inclusão, em
    posição secundária, do Ministério do Meio Ambiente,
    do Conselho Empresarial Brasileiro para o
    Desenvolvimento Sustentável, de alguns governos
    estaduais da Amazônia e de várias ONGs. Em junho
    de 2000, por iniciativa da presidência da República
    e do ex-deputado federal Fabio Feldmann,
    foi criado o Fórum Brasileiro de Mudanças
    Climáticas, de caráter multissetorial, que reuniu
    diversos atores governamentais, empresariais, não
    governamentais e acadêmicos. Este fórum constituir-
    se-á uma inovação tanto em termos de criar
    uma arena propícia para a formação do posicionamento
    nacional quanto de internalizar o regime
    de clima dentro do país. A partir de outubro de
    2000, o Ministério do Meio Ambiente e governos
    de alguns Estados amazônicos questionaram a tradição
    brasileira de ter um posição contrária à inclusão
    do ciclo do carbono no Protocolo (sumidouros
    por meio de florestas e do manejo do
    solo). Muitas ONGs, particularmente aquelas que
    têm grande atuação na Amazônia, pressionaram o
    governo para apoiar a inclusão de projetos relacionados
    à proteção de florestas primárias no Mecanismo
    de Desenvolvimento Limpo. Contudo, a
    posição do Ministério de Ciência e Tecnologia e
    do Itamaraty continuou predominando.
    No Grupo G77/China, o Brasil sempre teve
    uma posição de liderança, e tornou-se uma ponte
    para o diálogo entre países desenvolvidos e aqueles
    que mais se confrontavam com estes, como Índia,
    China, Indonésia e Malásia. A comissão brasileira
    manteve a opinião de que toda a responsabilidade
    pela redução das emissões era dos países
    desenvolvidos e, portanto, opôs-se delib
  • Mariana
    É incrível como existe gente ignorante na sociedade , que fica feliz porque vai ver meia dúzias de artistas famosos e internacionais! Enquanto o seu POVO, morre por bala perdida, é espancado no ponto de ônibus, crianças vão para a escola correndo e se perguntando se vão chegar em casa!!!

    E um governo que aprova isso, porque tem que enterter a sociedade "imbecil"
    do Brasil!!!

    Triste!!!!!!!!!!!!!
  • ANDRESA NUNES AGUIAR
    Eu to muito feliz por ver que o Brasil não foi esquecido,e vai participar mundialmente desse eventos como vai acontecer no dia 7/7/2007 e que possa repetir muito mais e gostaria que o show da Madona fosse aqui!!!!
  • Gabriel
    Thats THE point, a Microsoft não que lutar contra o aquecimento global, só quer mostrar sua imagem, para que seja mais reconhecida, ou para que seja mais limpa, afinal, o que ela poderia fazer ?

    Você, que esta lendo esta mensagem agora, acha que sairiam entrevistas sobre a Microsoft ter plantado (como ter plantado árvores na Amazonia, investido, na energia limpa) no jornal ?

    Concordo que sim, porém, so por alguns dias, MAS, duvido que a ajuda da Microsoft ficaria ligada ao problema de aquecimento global no pensamento das pessoas (consideradas consumidoras, clientes, esse tipo de gente)
    , você acha ?

    EU NÃO. A Microsoft queria algo grande!!!!
    Que fique como uma lembrança:
    "Viu, lembra do super-show que a Microsoft deu sobre o aquecimento global, então né, estamos vivos por causa dele."

    Dou até um exemplo, quem viu o filme
    "Verdade Incoveniente" de Al Gore ?
    Quem lembra da parte em que ele fala sobre as coisas que temos que fazer para melhorar o aquecimento global ?
    Eu NÃO.
    Ele vendeu sua imagem bem, ele quer algo em troca para dizer o que se é presiso para COMBATER O AQUECIMENTO GLOBAL, MAS, O QUE SERÁ ?

    Talvez, A PRESIDÊNCIA (se alguem ainda não tem inteligencia para enternder, ele [o presidente] TAMBÉM É um tipo de PUBLICITÁRIO, ou não,quem discorda, poste, porém, a verdade é muito, muito, má, como você decide para que candidato à presidencia votar ? : "o com a melhor PROPAGANDA !!!") , quem viu as reportagens sobre o Gore na Globo, por exemplo na reportagem, diz que a presidencia não é o que ele quer para seu futuro, mas ninguem perguntou para ele se seria algo maior, (não que a presidência seja algo pequeno, mas, imaginem, vender sua imagem e ser a coisa mais importante, ser um publicitario mundialmente conhecido, nao que ele ja seja, porém, acho que ele alcançou seu objetivo, todos o conhecem, a maioria o louva, a propaganda ganhou, enganando as pessoas [nao totalmente], porém,
    infelizmente, de novo)

    Afinal, o que não é propaganda ?
  • Matias
    Certo. Vamos fazer um show de proporções gigantescas para promover o combate ao aquecimento global.

    Quando milhoes isso vai custar pra Micros~1?
    A empresa quer promover seu nome e pegar o Aquecimento Global, que agora está super na moda, como âncora.
    Por que eles simplesmente nao pegam estes milhões que vao ser gastos e platam em árvores na Amazônia? Ou investem em geração de energia limpa, ou qualquer coisa que o valha.

    Só o nível de CO² que vai ser emitido devido a estes shows nao vai compensar toda essa propaganda.

    A wolf in sheep's clothing.
  • Fernando
    A microsoft tem seu capital financeiro investido em várias multinacionais responsáveis pela maioria dos poluentes despejados no mundo. Mas nada como doar milhões e promover shows beneficentes para tornar se o herói da história. Fantástico...pra não dizer trágico.
  • jmsbeta
    O que acha de lançar um Deskmod ecológico? Esse wallpaper do Live Earth poderia servir como inspiração.
    Parece que a população está mais consciente com relação aos problemas ambientais do world.

    []'s
  • M1ster,
    Será o único lugar que será free pois sabem que aki se não for free o povo não vai, hehehe.
  • Renan
    nun saiu a lista ainda ??

    aposta quanto que so vai se artista do brasil

    dificil vim estrangeiro aqui no brasil pra gente assisti de graça

    (rolling stones foi a prefeitura do rio que pago)
  • M1ster
    Lembrando que o show no Rio será o único gratuito.
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