Nos últimos anos, a Microsoft tem demorado para responder novidades do mercado. A linha Live, de serviços e busca na Internet, só apareceu quando a Google já estava consolidada; o Zune, só deu as caras quando o iPod já tinha revolucionado o mundo dos players digitais. E assim, entrando atrasada na disputa, a única maneira de abocanhar uma fatia desses nichos é se diferenciando.

Se por enquanto a empresa de Redmond ainda tenta encontrar o diferencial na Live, pode-se dizer que no Zune já o encontrou. É justamente esse ponto que irei abordar neste artigo.

Quando surgiram os primeiros rumores do Zune, o projeto não foi levado muito a sério pela crítica e pelo público. Lançado de 14 de novembro de 2006, não fez nem cócegas no reinado da Apple, e praticamente passou batido pelos consumidores. O principal defeito do Zune 1G (primeira geração) foi justamente a falta do que, mais à frente, fez a diferença: inovação. Sim, ele trazia WiFi, mas era limitadíssimo, já que servia apenas para transferir músicas lotadas de DRM entre Zunes próximos, as quais só podiam ser tocadas três vezes.

Mas, como diz o slogan de um certo blog, “o primeiro rascunho de qualquer texto é uma m#$a@”. Essa célebre frase de Ernest Hemingway, feitas as devidas adaptações, pode ser usada sem medo no mundo da informática - quem comprou a primeira leva do iPhone que o diga.

O Zune 2G, lançado em 13 de novembro de 2007, trouxe novidades muito boas. Antes dele sair, porém, os primeiros tiros certeiros da Microsoft foram dados. Um corte agressivo nos preços do Zune G1 fez com que o player alcançasse o topo da lista dos mais vendidos na Amazon. Ainda antes do lançamento, uma espécie de promoção, o Zune Originals, na qual o consumidor podia escolher um desenho a ser gravado nas costas do aparelho, sem nenhum custo adicional, arrancou elogios até de quem idolatra o iPod.

Zune Originals.

Com a chegada do Zune 2G, enfim, velhos problemas foram corrigidos, e novidades implementadas, com destaque para os modelos Draco, menores e com memória flash, e o WiFi realmente funcional, que sincroniza a biblioteca do gadget com o PC assim que entra na área de abrangência da rede sem fio. Houve outras grandes mudanças, como o novo botão central squircle, e a GUI completamente remodelada. Muito oba-oba dos sites de tecnologia, e reviews bastante entusiasmados e positivos acerca da nova versão do player da Microsoft foram publicados.

A cereja do bolo, todavia, veio para quem tinha um Zune 1G: eles receberam todas as novidades de software via atualização do firmware, de graça, custo zero. Enquanto isso, na concorrência, Steve Jobs cobra U$ 20,00 por cinco softwares no iPod touch, como bloco de notas e acompanhamento de ações da bolsa…

Se alguém falasse as ações acima, sem citar as empresas responsáveis por cada uma, tenho certeza que a maioria das pessoas atribuiria a atualização gratuita do firmware à Apple, e a cobrança de U$ 20,00 por programas idiotas à Microsoft. Que coisa, não?

Zune Valentine’s Day.

A última da Microsoft para com o Zune ocorreu nessa semana, no dia dos namorados do resto do mundo. Para comemorar a data, muitas empresas lançam edições cor-de-rosa e vermelha dos seus produtos. O Zune entrou na dança: modelos nas cores dos apaixonados foram lançados. Ocorre que a demanda pelo Zune 80 vermelho foi tanta, que não deu para enviar todos os pedidos antes do dia dos namorados. A Microsoft, então, soltou um comunicado no qual informou que o valor pago, cerca de U$ 250,00, seria restituído a quem fosse receber o produto após o dia 14 de fevereiro. É isso mesmo: quem recebeu o produto depois do dia dos namorados, não pagou absolutamente nada por ele. Um Zune 80 grátis, graças a um atraso de um ou dois dias…

A Microsoft sempre teve uma imagem de corporação malvada, e algumas táticas da empresa, como aquele lance de distribuir softwares gratuitamente em troca da privacidade dos clientes, corroboram essa sensação. Justamente por isso, ações como as que a empresa desenvolve junto ao Zune surpreendem tanto, e passam a impressão de que existe uma outra Microsoft na jogada, a Microsoft do Zune. A pressão do “don’t be evil” da Google, somada aos cofres abarrotados da empresa, devem ajudar, mas que uma mudança de postura vem ocorrendo em Redmond, isso é inegável. Bom para nós, consumidores!