Entrevista com André Furtado, da Microsoft
30/04/2008, às 14:11 — Em: Eventos e entrevistas Comente!Há alguns dias, tive a chance de entrevistar o André Furtado, brasileiro que, atualmente, trabalha em Redmond, na sede da Microsoft, na área de service packs e hotfixes. A entrevista foi feita via e-mail, e contou com a participação dos leitores do WinAjuda, através de um tópico no fórum.
O André foi bastante atencioso, respondeu as perguntas que podia, e aqui cabe uma ressalva. Conforme o mesmo explicou, apenasos relações públicas das equipes têm autorização para falar sobre novidades e produtos ainda não lançados. Ou seja, perguntas sobre Windows Seven e SP3 do Windows XP, que eram bastante até (cerca de seis), não foram respondidas.
Pedi ao André que escrevesse uma pequena biografia, como forma de se apresentar aos leitores:
André Furtado é engenheiro de software pela Microsoft Corporation em Redmond/EUA, mestre e doutorando em Ciência da Computação pela UFPE. É Certified Microsoft Solutions Framework Practitioner, Microsoft Certified Professional, Certified IBM-DB2 Specialist e Sun Certified Java Programmer. Foi campeão mundial das competições Imagine Cup Japan 2005, Imagine Cup Korea 2007, Innovation Accelerator Workshop (UK) e XNA Challenge Brazil. Possui mais de 40 artigos publicados em conferências, simpósios, journals e revistas tanto no Brasil como internacionalmente. Mantém um blog sobre engenharia de software, jogos e outros tópicos de TI em www.afurtado.net.
Como se vê, chegar lá não é fácil. A trajetória dele, dentre outras coisas, são abordadas na entrevista. Confira-a:
1. Me explicaram, meio por cima, sua trajetória meteórica, de programador de XNA a funcionário da Microsoft em Redmond. Confesso que, desde então, fiquei muito curioso quanto a ela. Poderia contar sua história dentro da empresa, com todos os detalhes, se possível?
É uma longa história... Já que você pediu em todos os detalhes, vamos lá! Em tempo, o vídeo do link a seguir resume os principais momentos dessa trajetória:
Tudo começou quando fui convidado pela Microsoft Brasil, em 2004, a ser um Microsoft Student Partner, uma espécie de estudante que representa a empresa no universo acadêmico para palestrar sobre produtos e novidades, além de organizar alguns eventos. Uma das minhas metas era incentivar o pessoal a participar da Imagine Cup 2005, a Copa do Mundo da computação patrocinada pela Microsoft. Então me questionei por que eu mesmo não estava participando, afinal, as finais mundiais seriam no Japão e esse era um dos países que eu mais gostaria de conhecer. Me inscrevi em 8 das 9 categorias, fui para as semifinais em 4 e, finalmente, para as finais no Japão em 2. Em uma delas, chamada Software Design, a principal da competição, fui quarto lugar mundial, com um software para a área de turismo. Na segunda mais importante, Office Designer, fui campeão mundial com colegas da UFPE, com um software para automatizar o uso de documentos em processos de produção.
A partir de então, muita coisa aconteceu na minha vida, como uma bola de neve: minha equipe do projeto do turismo foi chamada pela Microsoft para melhorar o projeto da Imagine Cup, através de um workshop de empreendedorismo em Londres. Com esse conhecimento adquirido na Inglaterra, amadurecemos a idéia, participamos e conquistamos o segundo lugar no Desafio FGV-Intel de Empreendedorismo, que premia os três melhores planos de negócios com foco na inovação tecnológica. Isso garantiu nossa participação no Intel+UC Berkeley Technology Entrepreneurship Challenge, na Califórnia, EUA. Estávamos saindo da área técnica para a área de negócios. Com tudo isso, minha equipe tornou o projeto mais maduro e, ano passado, conseguimos investimento da FINEP (empresa nacional que financia projetos) para criar uma espécie de start-up, na área de TV Digital, que hoje emprega cerca de 15 pessoas em Recife.
Ainda em 2006, atuei como mentor de duas equipes participantes da edição seguinte da Imagine Cup, esta com finais na Índia. Felizmente, uma das equipes levou o troféu de primeiro lugar em Interface Designer, enquanto a outra conquistou o vice-campeonato mundial na categoria principal (Software Designer). Em novembro daquele ano, mais uma surpresa: ao submeter um artigo relacionado ao meu tema de mestrado (com foco em tecnologias Microsoft para desenvolvimento de jogos, incluindo o XNA) para uma conferência de Engenharia de Software na Rússia, tive o artigo aceito e a Microsoft Brasil me mandou para Moscou, para defender o artigo. Aproveitei para realizar alguns eventos em uma célula acadêmica Microsoft da região, e contei com todo o apoio de amigos russos que havia conhecido no Japão, naquele país longe e diferente. Fiquei impressionado como se pode conquistar um excelente networking através de ações relacionadas na Microsoft, mesmo sendo apenas um estudante!
2006 terminou com a realização de um grande desafio: passar pela maratona de entrevistas para trabalhar como Engenheiro de Software no quartel-general da Microsoft Corporation, em Redmond, EUA. O trabalho começou apenas mais de um ano depois, em janeiro desse ano, devido ao tempo que se leva para tirar um visto de trabalho para os EUA. Nesse meio tempo, engatei um doutorado sobre o uso de fábricas de software e linguagens de domínio específico, integrados ao Microsoft Visual Studio e ao XNA, para automatizar o desenvolvimento de jogos.
Mas 2007 ainda iria trazer bastante coisa boa. Em janeiro daquele ano, aproveitando o futuro tema da tese de doutorado, com foco no XNA, participei do primeiro XNA Challenge Brazil. Alterei o jogo Space War, que vem com o XNA Game Studio Express, para suportar reconhecimento de voz:
Venci o campeonato e como prêmio fui convidado para participar de um evento chamado Academic Days on Game Development, que ocorreu em um cruzeiro pelas Bahamas e Caribe, com palestras a bordo, discutindo o futuro dos jogos digitais.
Nesse cruzeiro, fui convidado a participar do Desafio XNA 4x4, que aconteceu na maior conferência mundial de jogos do mundo – a Game Developers Conference –, em São Francisco, EUA. Lá cumpri o desafio de criar do zero um jogo XNA em apenas quatro dias. Em seguida, no ano de 2008, participei da segunda edição do XNA Challenge Brazil, dessa vez como juiz, a convite da Microsoft Brasil.
No meio do ano de 2007, surgiu a oportunidade de participar pela última vez da Imagine Cup, naquele ano na Coréia, pois no ano seguinte já seria funcionário oficialmente contratado pela Microsoft e, portanto, estaria obrigatoriamente fora pelas regras da competição. Montei uma equipe com os vencedores de 2006 e apostamos quase todas as fichas novamente na categoria principal, Software Design. Como ficamos em segundo lugar na eliminatória nacional, estaríamos fora da competição se não fosse pelo resto das fichas: investimos os últimos esforços para adaptar o projeto a outra categoria, Embedded Development (desenvolvimento de sistemas embutidos). Por fim, a história teve um final feliz: a equipe foi umas das 6 classificadas para as finais em Seoul e conseguir trazer o caneco de campeã mundial mais uma vez para o Brasil.
2. Há toda uma mítica acerca da sede da Microsoft, como aquele papo de que, lá, os funcionários têm acesso a Coca-Cola e café gratuitos durante o expediente, sem falar nos (exagerados, penso eu) rumores de que muitos vão trabalhar de shorts e camiseta cavada. Até onde isso é verdade? Como é o ambiente em Redmond? É bom trabalhar na Microsoft? Por quê?
De fato, a Microsoft pode ser considerada como um daqueles poucos lugares únicos no mundo para se trabalhar. Sim, a Coca-Cola, o café e chocolate-quente da Starbucks, leite, outros refrigerantes e sucos totalmente gratuitos estão disponíveis na cozinha de cada andar. Isso é apenas um dos benefícios que a empresa oferece aos funcionários. Existe uma boa dezena de outros, como um dos melhores planos de saúde dos EUA, acesso à maior academia do país, participação nas ações da empresa, transporte grátis dentro do campus, passe livre para andar de ônibus por toda a região, cartão especial de desconto para funcionários em diversas lojas, restaurantes e outros estabelecimentos, incentivos a doações (para cada dólar seu gasto com caridade a Microsoft oferece mais outro dólar para a instituição beneficiada), uma lojinha (com Xbox 360 e acessórios, software Microsoft, etc.) com preços promocionais para funcionários, entre muitos outros, sem falar da flexibilidade total de horário. Esse vídeo do link a seguir apresenta bem muitos deles:
Sobre funcionários que vão trabalhar de shorts e camiseta, sim, isso existe. Basta abrir um solzinho em pleno inverno (por acaso nevou hoje, em abril!) para ver alguns americanos mais acostumados (e mais corajosos) de bermuda, mesmo que num frio de apenas 5 graus. Nem imagino como deve ser no verão...
3. Os sistemas operacionais da Microsoft têm fama de serem falhos em termos de segurança. Mesmo com as melhorias realizadas nos últimos anos, que levaram o Windows a um nível de segurança muito bom, o estigma, o preconceito, permanece. Como parte do time responsável por service packs e hotfixes, como você vê isso? Incomoda-lhe esse pensamento pejorativo que crítica e público insistem em cultivar?
Como você mesmo citou, bastante preconceito e pensamento pejorativo ainda persiste, mesmo sendo reconhecido os avanços realizados nos últimos anos. De fato, é uma posição confortável ficar apenas criticando o software mais complexo do mundo, que roda em centenas de milhões de máquinas, quando uma falha acontece. Mas quando se está do lado de dentro, é possível não apenas ter uma noção da dimensão do software, mas também do esforço necessário para mantê-lo, para integrá-lo, para testá-lo, para obter feedback de usuários em cada uma de seus vários componentes e funcionalidades.
Fiquei impressionado como nenhuma mudança deixa de passar por uma análise criteriosa das linhas de código afetadas. Não estou falando de um peer review feito por outro desenvolvedor, e sim de extensas reuniões envolvendo desenvolvedores, testadores e gerentes da funcionalidade em questão. Iniciativas como a Trustworthy Computing e metodologias como a Threat Modeling são levadas muito a sério por aqui, junto com muitas outras técnicas focadas em produção de código seguro.
Porém, acho que o pensamento pejorativo anti-Microsoft vai sempre existir, em maior ou menor intensidade, especialmente pela turma que prefere discutir software como se discute religião ou futebol. Acho que essa energia seria muito mais bem gasta se todos nós juntássemos nossas habilidades e proficiências para resolver os vários problemas que enfrentamos na Era da Informação de hoje e explorar as várias oportunidades que a tecnologia pode oferecer à sociedade.
4. Que conselho você daria para um jovem brasileiro cujo sonho é trabalhar na Microsoft?
O primeiro passo é concluir a graduação em um curso de tecnologia, como Ciência ou Engenharia da Computação, de no mínimo 4 anos. Isso não é opcional, é requisito. Entretanto, não seja um caçador de diplomas: aproveite a oportunidade para criar embasamento durante todo o seu curso, mesmo que você não vá lidar com essa ou aquela tecnologia específica.
Para as entrevistas da Microsoft, o primeiro passo é enviar o currículo para o pessoal de recrutamento da América Latina: sarec@microsoft.com. Creio que a cada 3 ou 4 meses eles vêm ao Brasil para uma rodada de entrevistas com candidatos. A maratona é longa e difícil, envolvendo entrevistas por email, por telefone e presenciais. Os conhecimentos mais desejados nessas entrevistas são pensamento criativo e organizado, lógica de programação, algoritmos e estrutura de dados.
Eu escrevi três artigos com dicas para processos de seleção e de entrevista na área de informática, que podem ser encontrados nos links abaixo:
- Parte 1: Preparando o espírito e o CV;
- Parte 2: Entrevistas por e-mail e telefone;
- Parte 3: Entrevistas presenciais.
Ainda existe meu relato completo da minha rodada final de entrevistas, que pode ser encontrada aqui.
Por fim, eu mantenho um blog no qual eventualmente publico dicas de entrevista e relato minhas aventuras no mundo Microsoft e da computação em geral, em www.afurtado.net.
5. Palavras finais...
Então é isso. Ressalto que todas as informações e relatos apresentados representam meu próprio ponto de vista, não necessariamente refletindo as opiniões da Microsoft. Obrigado pela oportunidade e um grande abraço a todos do WinAjuda!
[]s
-- AFurtado
Quem escreveu?
Rodrigo P. Ghedin. Paranaense, 22 anos, bacharel em Direito e aficionado por informática. Windows-user desde 1996. Powered by "PC frank" (7 Ultimate) e Dell Vostro 1000 (XP Home).
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