No Wincast #005, o tema central foi Bill Gates e sua trajetória. Na ocasião, eu e o Emerson deixamos passar batido o único filme (até onde sei) que conta parte dessa história: Piratas do Vale do Silício. Foi uma falha imperdoável, parcialmente retratada pelo @le e seus comentários sobre o filme no Wincast seguinte.
Mas não foi o suficiente para mim. Tanto que, no dia seguinte ao da gravação, estipulei como meta para o fim de semana seguinte assistir Piratas do Vale do Silício. E assim foi feito. Confira agora uma leve e despretensioa análise, algo como um pedido de desculpas por ter esquecido este lendário filme no momento em que falar dele era essencial.
Piratas do Vale do Silício foi feito para TV, e apareceu nas telinhas americanas em 1999, dois anos após Steve Jobs voltar à Apple e começar a virada da empresa. No filme, dirigido pelo "famoso quem?" Martyn Burke, Noah Wyle interpreta Steve Jobs, e Anthony Michael Hall faz o papel de Bill Gates.

Sendo um filme feito diretamente para a TV, não dá para esperar muita qualidade em termos técnicos. Mas o enredo é legal, mesmo para quem não curte muito informática, e consegue prender a atenção.
A história começa focada em Jobs e seu amigo xará, Steve Wozniak (interpretado por Joey Slotnick), co-fundador da Apple. Depois, é a vez de Gates e sua patota (Paul Allen, interpretado por Josh Hopkins, e Steve Ballmer, por John Di Maggio). E assim acontece durante toda a película: a gênese das duas empresas, Apple e Microsoft, são mostradas, com alguns contatos vez ou outra.
O Altair está lá, o DOS, os primeiros computadores da Apple (Apple II, Lisa, Macintosh), tudo. Não sei se a história foi retratada com extrema fidelidade, mas no filme tudo faz sentido. No começo, aliás, a Apple tinha mais destaque que a Microsoft.
O polêmico caso do "roubo" das idéias da Xerox pela Apple, e posteriormente da Apple pela Microsoft, é mostrado. Jobs se infiltrou (legalmente, apesar da palavra) na sede da Xerox graças a seu carisma, e a contra-gosto dos engenheiros da concorrente, teve acesso aos revolucionários recursos que a alta cúpula da empresa julgava ruins: interface gráfica e mouse. E depois, Gates, usando todo seu poder de persuasão, conseguiu três protótipos do Macintosh, e em cima deles, criou o Windows.

Além dos computadores, o que vale a pena no filme também é reparar nos traços das personalidades dos personagens. Jobs parece sofrer de transtorno bipolar: em público, é só carisma; nos bastidores da Apple, é um carrasco, tirano e desalmado. Essa última faceta se estende à sua vida particular, retratada no filme pela sua filha não-reconhecida, Lisa (entendeu o porquê daquele computador?). Gates, se morasse no Brasil, seria o típico mineirinho: come pelas beiradas, e quando alguém se dá conta, ele já está no topo.
Naquela época, ambas as empresas tinham como "inimiga" a IBM. É impressionante perceber a importância que a Big Blue tinha antigamente. E é igualmente impressionante ver o quão idéias retrógradas e descrédito para com o novo podem arruinar um império. Quando Paul Allen apresentou o DOS como potencial sistema operacional dos IBM-PC, um executivo da IBM, desdenhando o produto, disse que o lucro está no hardware, e não no software. Aposto que esse cara não se aposentou pela IBM...
O filme mostra o fundo do poço no qual Jobs se meteu - e para onde levou a Apple junto. Gates, após fechar o acordo relativo aos Macintoshs, disse: "Ele vê aquilo em que acredita. Não somos o maior problema dele. Se ele não se cuidar, quebrará a empresa". Sábias palavras, tio Bill. Entre festas violentas, descontroles irracionais e rixas motivadas por Jobs entre os próprios funcionários da Apple, John Sculley, CEO contratado por Jobs algum tempo antes, mandou-o embora da Apple.
Nunca tinha lido ou entendido a fundo os motivos que levaram Jobs a ser mandado embora da empresa que ele mesmo fundou. Ao assistir o filme, porém, e partindo da premissa de que o que está ali é verdadeiro, vejo que não havia outra solução. O cara tocava o terror dentro da Apple. Resumindo Jobs numa palavra, era um babaca. O tempo afastado talvez lhe tenha sido benéfico. Ele reconheceu Lisa, e desde a volta à Apple, nunca lemos ou ouvimos nada sobre atitudes reprováveis dele.
O final, que o @le já contou no Wincast, mostra parte de um keynote de Jobs, no seu retorno à Apple, em 1997, com Bill Gates ao fundo, no telão. A Microsoft possui parte das ações da Apple, e naquela época (do filme), Gates era o homem mais rico do mundo, com mais de 100 bilhões de dólares.
A trilha sonora é bacana. Rola Tears for Fears, Ella Fitzgerald e Talking Heads!
Enfim, vale a pena! É difícil encontrá-lo nas locadoras, tanto por ser um filme desconhecido, quanto por ter sido lançado direto na TV, mas não é algo impossível. Com persistência, se acha uma cópia.
Quem escreveu?
Rodrigo P. Ghedin. Paranaense, 22 anos, bacharel em Direito e aficionado por informática. Windows-user desde 1996. Powered by "PC frank" (7 Ultimate) e Dell Vostro 1000 (XP Home).
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