Cansado do meu bom péssimo e velho Sony Ericsson T290, há pouco mais de dois meses resolvi adquirir um novo celular, ou melhor, um smartphone. A idéia era pegar um faz-tudo, logo, iPhone e celulares multimídia, como os Sony Ericsson, estavam fora de cogitação. A dúvida ficou entre Symbian e Windows Mobile, ou, na figura dos seus fabricantes, Nokia e HTC - lembrando que o Windows Mobile não é exclusividade da HTC, mas que esta é uma fabricante com a qual simpatizo bastante. Analisando todas as características dos modelos top de ambas, por fim fiquei com o Nokia N82 (especificações), o, arrisco dizer, celular mais completo disponível atualmente.

O N82, embora seja menos badalado que o N95, traz tudo o que este tem de bom, e vai além. Ajeite-se confortavelmente, e prepare-se: há muito para ser dito sobre este smartphone.

Aspectos externos

A caixa do N82 é bem descolada, e traz uma série de acessórios, um manual gigantesco, CD de instalação do Nokia PC Suite, dentre outras coisas.

O N82 trabalho com cartões de memória do padrão microSD, e no pacote, vem incluído um de 2 GB - mais que suficiente para a maioria das pessoas. Além do cartão, vale destacar também o fone de ouvido da Nokia, que tem uma qualidade ótima e usa um plug padrão, de 3,5 mm, e o cabo TV Out, que permite usar o celular na televisão, para jogar, mostrar fotos ou vídeos.

O aparelho vem bem protegido, e a caixa, como dito, é super elegante.

Carcaça

Estava receoso do N82 ser grande, pesado e/ou desengonçado. Mas esse medo passou na primeira vez que o vi ao vivo. De fato, ele é grande, e rema contra a maré de celulares slim. Todavia, seu tamanho é relativamente pequeno (se comparado ao iPhone, por exemplo), de forma que cabe no bolso sem maiores transtornos. O peso? Para um celular que agrega tantas funções, pode-se dizer que é bem leve - 114 gramas.

O corpo do N82 é um show à parte. A frente é de metal, e embora fiquem marcas de digitais, qualquer paninho de algodão resolve o problema. A lateral é de um plástico bastante resistente e fosco, e a traseira, aquele plástico brilhante, muito similar ao dos notebooks da HP. É um celular bonito, de verdade, e discreto, do tipo que chama atenção apenas dos mais atentos.

Uma crítica que li e ouvi muito antes de comprá-lo refere-se ao teclado numérico, para ser mais exato, no tamanho diminuto das teclas. De fato, elas são pequenas, mas o espaço largo que há entre elas anula quaisquer dificuldades que poderiam acontecer. É fácil digitar no N82, e erros são raros.

Falando em teclado, o N82 segue o padrão dos Nokia Nseries. Há o teclado numérico, e acima deles, vários botões de navegação. São os dois de liga/desliga, dois de seleções (esquerda e direita), o do menu, o clear, um de acesso rápido a um menu diferenciado (este meio inútil), e o direcional, que inclui um botão central. Pode parecer muito, mas com alguns dias de prática, tudo se torna incrivelmente natural.

Um detalhe ergonômico muito bem pensado, mas que geralmente muitos celulares pecam, é a disposição das entradas e botões nas bordas do celular. Exemplo: na parte inferior, que geralmente fica no fundo do bolso, só há o microfone; nada de conectores, ou slots. Já o plug do fone de ouvido, fica na parte superior, de modo que, mesmo no bolso, dá para usá-lo normalmente, sem forçar o cabo, nem deixar o celular de maneira desconfortável. Enfim, vejamos parte a parte, em detalhes.

O topo, como dito, abriga o plug de 3,5 mm, do fone de ouvido, o gancho para prender um penduricalho (ohó!), e o botão de ligar.

Do lado direito, há os botões de mais e menos, que na maioria das situações serve para aumentar ou diminuir o volume, além de outros dois, um de acesso à galeria de imagens, e outro, maior, para tirar fotos. Além disso, estão ali também os dois speakers.

Do outro lado, ficam os conectores USB (proprietário, infelizmente) e do carregador, e o slot do microSD.

Na parte frontal, temos o teclado, já comentado, há também a tela, uma LCD TFT de 2,4″ com resolução QVGA capaz de mostrar 16 milhões de cores. Com a mesma resolução do N95 (240×320), a do N82 que garante uma maior nitidez, haja visto a tela do “irmão mais velho” ser de 2,8″. Acima dela, o fone de ouvido para chamadas, e ao lado dele, a câmera frontal, para vídeochamadas 3G.

Na parte traseira, a câmera digital. Mas sobre ela, falarei depois.

Vale dizer que o N82 é resistente. Minha digníssima namorada fez, sem meu consentimento e involuntariamente, um stress test caseiro, procedimento laboratorial este também conhecido como “derrubar no chão sem querer”. No caso, de uma altura de uns 80 centímetros. O celular (e o namoro) passam bem, obrigado.

Bateria

A tonelada de recursos, que será mostada abaixo, demanda uma bateria boa. E a do N82, de 1050 mAh, dá conta do recado. Meu uso é basicamente telefone, fotografias esporádicas, um pouco de música e WiFi quase diário, coisa de meia hora a uma hora. Com este perfil, a bateria chega a durar quatro dias, número este que, levando em conta a quantidade de recursos e os usos que faço, é muito bom.

Interface de uso e Symbian

Sai de um sistema fechado e estupidamente lento, como o que a Sony Ericsson enfiou no T290, e partir para um Symbian S60 3rd Edition Feature Pack 1, é como mudar da água para o vinho. O sistema é rápido, estável e muito intuitivo, mesmo sem touchscreen.

Há muito que ser dito sobre o Symbian, mas para resumir numa palavra, ele é versátil. É como um sistema para desktop: tem multitarefa (inclusive com task manager), permite a instalação de programas, manutenção e é fácil de usar. As teclas do celular são usadas da melhor maneira possível.

A interface do Symbian é bonita e bem resolvida. O dashboard (imagem ao lado) é personalizável, como tudo no sistema, e deixa à mão as principais funções do celular, além dos eventos marcados na agenda, e os serviços em uso, como WiFi, alarmes, Bluetooth e outros.

O menu principal é, como já dito, personalizável também. É possível criar novas pastas, mover os itens entre elas, criar diretórios, enfim, deixá-lo à sua maneira.

A instalação de programas é relativamente fácil, e o sistema aceita programas feitos em Java (*.jar) e num formato próprio do Symbian (*.sis e *.sisx). Há uma variedade gigantesca de programas, gratuitos e pagos, para as mais variadas finalidades. Já encontrei um que tira screenshots (usado neste review), cliente do Gmail, bate papo (Fring), cliente para o Twitter, sem falar nos jogos, uns pagos, como o Block Breaker, outros gratuitos, como o Frozen Bubble. No campo dos pagos, estou usando a versão de testes do Mobile Office 4, uma suíte de escritório para Symbian, que embora não seja a melhor (o QuickOffice ocupa este posto), é U$ 20,00 mais barata. A propósito, vale dizer que, por padrão, só vem um visualizador de arquivos Office, o que é uma pena…

Aproveitando o gancho, os programas que acompanham o Symbian do N82 são muitos, e suprem a maioria das necessidades do usuário. O básico do básico, que é agenda de contatos, PIM, calendário, calculadora e alarme, obviamente está presente. Além disso, vem no pacote um visualizador de PDFs, compactador de arquivos, gerenciador de arquivos, player de áudio, Real Player, galeria de imagens, (ufa!), navegador NetFront, Nokia Maps, dentre outros. É MUITA coisa.

Para gerenciar tudo isso, há um mecanismo de pesquisa interna, bastante parecido com o Spotlight do Mac OS X, ou a instant search, do Windows Vista. Basta digitar algo, e o sistema vai filtrando os arquivos, programas, contatos e Internet. Embora tenha sua utilidade, dada a quantidade de informações que carrego, e a organização em pastas que tenho costume em fazer, não uso com tanta freqüência este recurso…

O Symbian sofre duras críticas atualmente, e a Nokia, ciente disso, recentemente comprou o sistema, e irá torná-lo livre. Sobre o sistema em si, achei-o é bastante estável - até hoje só travou na minha mão uma vez, após uma sessão bem hardcore de fotografias. O tempo de resposta do sistema é muito bom, há uma infinidade de programas disponível, e ele é bem esperto. Não sei se sou pouco exigente para sistemas operacionais, ou se as críticas ao Symbian são infundadas, mas de minha parte, estou muito satisfeito.

Conectividade

Neste ponto, os celulares top da Nokia dão um banho. O N82 é um GSM quad band, e trabalha em redes 3G HSDPA 2100. Ainda se conecta via GPRS, EDGE e WiFi 802.11b/g, e suporta Bluetooth 2.0 A2DP. Só faltou, mesmo, infra-vermelho, algo que o N95 tem…

Qualidade de conversação

De nada adianta muitos recursos, se o principal não funciona. Felizmente, não é o caso do N82. O microfone é bom, e capta sem maiores problemas a voz. As saídas de som, tanto do telefone, quanto os speakers laterais, apresentam áudio cristalino e de fácil entendimento, em muito ajudado pela ótima qualidade da antena, sempre funcional.

A qualidade dos speakers não é tão boa quanto dos celulares da linha Walkman, da Sony Ericsson. Todavia, cumprem bem seu papel, no sentido de ser possível ouvir uma música, ou conversar usando alto falantes, sem problemas.

Acelerômetro, aGPS, video out…

Vamos dar uma passada geral nos recursos restantes do N82. O acelerômetro é aquele mesmo do iPhone. Ele rotaciona a tela de acordo com a posição do celular, deixando-o na horizontal quando o aparelho assim está. Ao contrário do N95, que só habilita essa função com o teclado multimídia aberto, no N82 ele é automático. Virou o celular, virou a tela.

Outro detalhe legal do acelerômetro são os jogos criados em cima da tecnologia. Recentemente testei o pyWuzzler, um game de pebolim bem simples, mas que faz uso deste recurso de maneira exemplar. As possibilidades, aliás, não se restringem a jogos. Existem programas, ainda em testes, que permitirão atender chamadas, e colocá-las em modo viva voz e/ou espera, tudo através de movimentos, como por exemplo, virar o celular com a tela para baixo. Espero ansioso por essas coisas!

Há aplicabilidade para este recurso. Ver vídeos e fotos, por exemplo, é mais confortável na horizontal do que na vertical, por motivos óbvios. Navegar na web, também.

O GPS funciona, mas funciona de maneira precária. Demora para localizar a posição inicial, e a margem de erro é grande - em testes caseiros, foi de 1700 metros. O Nokia Maps acompanha o pacote, e é possível instalar aplicativos de terceiros como o Google Maps.

“Para que saída de vídeo?”, alguém pode perguntar. Para várias coisas, eu respondo: mostrar fotos e vídeos, jogar, navegar na web… Não é o tipo de recurso que se usa a todo momento, mas é algo com que vale a pena contar.

A melhor câmera disponível num celular atualmente

Pretensioso? Talvez. Mas, acredite, é a realidade. E isso graças a uma combinação matadora: lentes Carl Zeiss, 5 MP e flash de xenônio. Este último, aliás, é a principal diferença e vantagem do N82 sobre o N95, já que este último traz apenas o (quase inútil) flash de LED.

A câmera do N82 é incrível, e foi um dos pontos que me levou a adquirir este celular. Ela pode, sem problema algum, substituir uma câmera convencional, dessas de entrada que Sony, Panasonic e Canon oferecem. Tem recursos incontáveis, como zoom, foco automático, timer, balanço de branco, controle de contraste e nitidez, redutor de olhos vermelhos… Enfim, tudo que uma câmera de entrada possui. Ela ainda faz vídeos em resolução VGA (640×480), a 30 frames por segundo.

Para comparar, tirei fotos idênticas com o N82 e uma Sony Cyber-shot S40, câmera relativamente velha, mas ainda assim, uma câmera convencional. Confira os resultados (N82 à esquerda):

Imagem ao ar livre (luz solar).
Imagem de interior (luz artificial).
Imagem de interior (escuro, com flash).

Bacana, não? A qualidade é, se não superior, ao menos equivalente. As cores do N82 parecem mais vivas, também. O que mais surpreendeu, e que eu realmente não esperava, foi o flash do celular ser mais potente que o da câmera. Como dito acima, a S40 (câmera) é um pouquinho antiga, de 2005, mas independente disso, o flash do N82 impressiona.

A interface para tirar fotos é bem simples e intuitiva. O botão lateral, de disparo da câmera, permite uma empunhadura tal qual a que se tem em câmeras convencionais. Confira algumas screenshots da interface da câmera (detalhe que o software de captura não captura a imagem em si da câmera :P ):

Falando em vídeo, a qualidade dos vídeos produzidos pelo N82 é aceitável. Ele grava em 640×480, a 30 fps. Confiram um exemplo (pouco mais de 4 MB).

Concluindo acerca da câmera, o N82 atingiu as expectativas, e hoje supre sem problemas minha antiga DSC-S40. Já registrei alguns eventos com o celular, e salvo a falta de carga na bateria (que foi culpa minha, pois esqueci de carregar antes), não houve nenhum contratempo, antes, durante ou depois.

n-gage

Alguém se lembra do velho n-gage, o celular natimorto da Nokia que pretendia ser também um vídeo-game portátil, e que foi o único representante da infeliz idéia do sidetalking? Pois então. Como o portátil nunca emplacou, a Nokia resolveu reciclar a marca, transformando-a numa plataforma de jogos para Nokia. O resultado? Fenomenal.

Após baixar e instalar o software do n-gage no N82, você tem acesso a uma rede de games online, onde além de comprar os jogos (preços na faixa dos U$ 10,00), pode ter amigos, realizar disputas contra eles, e ganhar pontos. Os jogos são espetaculares, considerando-se o fato de ser um portátil. Gráficos excelentes, fun factor lá em cima. Uma pena os joguinhos serem caros… Serve de consolo a possibilidade de baixar uns demos.

Vídeo review

Uma imagem vale mais que mil palavras, e um vídeo? Imensurável? Então, curta aí o vídeo review que preparei do N82. Ele foi gravado há algum tempo, cerca de uma semana depois que adquiri o N82:


Review do Nokia N82 from Rodrigo Ghedin on Vimeo.

Concorrência

O Nokia N82 não é um celular popular, embora tenha todos os requisitos para sê-lo: é bonito e cheio de recursos. O preço, elevado, talvez afaste eventuais compradores, mas acho que o que mais ofusca o N82 é o próprio N95, que aos olhos do povão, é o celular top-mega-ultra-mothafocker do momento. É, sim, mas o N82 não deixa nada a desejar, e traz alguns extras interessantes em relação a ele, como flash de xenônio.

iPhone? Se você quer consumir conteúdo, ao invés de produzi-lo, ele é o celular perfeito. Aliás, essa definição me ajudou na hora da escolha: o iPhone é para quem consome conteúdo, já o N82/N95, é para quem produz. O que não quer dizer que seja impossível fazer as duas coisas em qualquer um deles. Dá para ouvir música, ver vídeos e se divertir com jogos nos Nokia, também. Mas são estilos diferentes, propostas diferentes. Para mim, o Nokia N82 é mais interessante.

Tem, ainda, os modelos equipados com Windows Mobile, especialmente os da HTC. São excelentes opções, e têm o extra, comungado com o iPhone, é verdade, da tecla sensível a toques. É questão de gosto mesmo, mas no meu caso, pendeu a favor do N82 a câmera, já que no mundo Windows Mobile não existe uma do nível da do Nokia.

A verdade é que, hoje, estamos bem servidos de smartphones. Cabe a cada um parar, e analisar o que é prioridade. Há espaço para todos, e isso só é possível porque cada sistema oferece propostas bem delimitadas, diferentes entre si.

Conclusão

Estou satisfeitíssimo com o Nokia N82. Antigamente criticava até com uma certa veemência celulares caros. O motivo de tanta revolta é que, até um, dois anos atrás, celulares caros não faziam jus ao que custavam. Não tinham câmeras capazes de substituir câmeras entry level, tinham memória limitada e não expansível, ofereciam pouco pelo que custavam. As coisas mudaram, e hoje tem-se, por pouco mais de mil reais, um verdadeiro PC na palma da mão, pronto para trabalho, lazer e o que mais for necessário.

Espero que tenham gostado do review, e aguardem, pois tenho mais produtos aqui que em breve serão apresentados, em todos os detalhes, no WinAjuda.