Há pouco mais de dois anos, fiz uma pequena analogia entre futebol e Windows em meu blog pessoal. Pode parecer estranho num primeiro momento, mas a repito aqui a título de esclarecimento. No futebol, o ápice do esporte, quando tudo e todos se mobilizam, é a Copa do Mundo. No mundo Windows, o equivalente a uma Copa do Mundo é o lançamento de uma nova versão. Só se fala nisso em sites especializados, e a ansiedade, pelo menos daqueles envolvidos e/ou entusiastas, é digna de uma disputa de pênaltis na final do torneio futebolístico.
Contada essa pequena parábola, fica mais fácil entender o porquê dessa imensa especulação e expectativa em torno do Windows 7 Beta 1, certo? A primeira versão de testes pública do próximo Windows, por si só, já faria muita gente virar madrugadas esperando sua liberação. Mas, além disso, o Windows 7 vale também por ter potencial para ser o melhor Windows de todos os tempos - e isso não é exagero, é a opinião de quem usa o sistema efetivamente. Senão, vejamos: 1) é mais leve que seu antecessor (fato inédito); 2) teve a interface remodelada, tendo em vista otimizações na usabillidade; 3) é tão estável e sólido quanto o Vista. Esses são apenas alguns dos fatores que alçam o Windows 7 a tal patamar.
Estou usando o sistema há quase uma semana, como o principal de minha máquina, algo não recomendável a ninguém, inclusive a mim. Antes de entrar nessa de kamikaze, fiz um backup redundante, num HD extra e em DVDs, dos meus arquivos mais importantes, sem falar que deixo o notebook, com Windows XP SP3, do meu lado, para eventuais emergências. Toda essa parafernalha protetiva é necessária, afinal, o Windows 7, por melhor que esteja, ainda é um produto beta. Só que, felizmente, nesses seis dias ele se mostrou tão estável quanto qualquer outro sistema, o que é uma excelente notícia.
Vocês já devem estar cansados de ler reviews e ver screenshots do Windows 7 Beta 1, não? Não? Ótimo, pois farei esse trabalho aqui, neste post. Mas, além disso, comentarei também algumas minúcias, que talvez ainda passem batidas pela maioria dos usuários, mas que, depois de conhecidas, tornam-se imprescindíveis. Sigam-me os bons!
Desenvolvimento
Quando a instalação começa, e vemos a nova tela de boot, com bolinhas voadoras que chocam-se e transformam-se no logo do Windows, dá para perceber que estamos frente a frente com algo... novo. Não que o Windows Vista fosse "velho" quando os primeiros betas saíram, mas o sentimento, dessa vez, é diferente. O desenvolvimento do Vista foi marcado pela letargia e incompetência da Microsoft em trazer à vida promessas e mais promessas, muitas delas, aliás, descartadas antes do lançamento da versão final. O mesmo não pode ser dito do Windows 7.
O Windows 7 é o primeiro Windows a adotar a nova linha de desenvolvimento da Microsoft. Menos conversa, mais trabalho. Features liberadas apenas depois de prontas, testadas e retestadas. Estabilidade em primeiro lugar, com a imposição a fabricantes de hardware para que os drivers escritos para a versão comercializada atualmente (Vista) sejam também compatíveis com a próxima (7). É a velha máxima da administração colocada em prática: o bom planejamento é tudo.
Ao invés de criar expectativas, a Microsoft pegou todos de surpresa, e antes mesmo de assimilarmos totalmente a idéia de um novo Windows, a empresa soltou o Beta 1, polido a ponto de muitos atribuírem a ele a estabilidade e padrão de qualidade de um Release Candidate (última etapa de testes antes da versão final). É, no mínimo, uma mudança interessante e bem-vinda de paradigma.
Visão geral
Ao iniciar o Windows 7, vemos o peixinho no já clássico fundo azul, e a barra de tarefas, ou melhor, a Superbar. Talvez os mais nostálgicos sintam dificuldades para entender e tirar proveito da nova barra de tarefas, mas asseguro a quem quiser: está melhor, bem melhor.
Outras novidades saltam aos olhos, como as jump lists, o novo gerenciador de acessórios, a integração do Internet Explorer 8 com a Superbar, os novos efeitos do Aero. Alguém pode dizer que não passam de meros adendos estéticos. Eu vou além, e digo que são melhorias notáveis em usabilidade e conforto.
Usabilidade
Vamos logo ao ponto mais interessante, na minha humilde opinião, do Windows 7 Beta 1: usabilidade.
Minha maior crítica em relação ao Windows Vista, o qual usei por um ano e meio, e gosto bastante, incide sobre a pouca evolução do sistema no quesito usabilidade. Usabilidade, segundo a Wikipedia, é (tradução livre):
Usabilidade é um termo usado para denotar a facilidade com que as pessoas lidam com uma ferramenta em particular ou outro objeto feito por humanos no sentido de atingir um determinado objetivo.
N'outros termos, é a facilidade e naturalidade com a qual interagimos com ferramentas e sistemas. Quanto mais natural e intuitiva ela for, melhor. E, nesse ponto, o Vista, se não representou um retrocesso, no mínimo estagnou.
Cito uma situação que exemplifica isso. No Vista, quando removemos um dispositivo de armazenamento, como um pendrive, salta uma janela popup na tela, avisando que o mesmo já pode ser removido com segurança. No Windows XP, era um balão, no relógio, que fazia o trabalho. O modelo do Windows XP é muito melhor, pois não é intrusivo, economiza um clique, e atinge o mesmo fim que o maldito popup do Vista, que não fecha com o Esc, mas apenas quando o usuário clica no botão Ok.
No Windows 7, temos o velho padrão do XP de volta: balão de aviso. Parece que a Microsoft pegou um certo trauma de balões de aviso, de modo que eles eram bem escassos no Vista. E eu, até hoje, não entendo essa aversão a tal modelo de notificação. Pelo contrário, só vejo vantagens nele: não é intrusivo, não atrapalha o trabalho, é discreto e funciona. Veja como fica o aviso de remoção de dispositivo:

Balões de aviso de volta.
Citar a Superbar no quesito usabilidade seria muita covardia. Ela junta a antiga barra de inicialização rápida com a antiga barra de tarefas, e o faz de maneira inteligentíssima. A Superbar é fruto de anos de pesquisa sobre os hábitos do usuário médio do Windows, cujos resultados foram comentados durante a PDC 2008. Tamanho esforço não poderia resultar em nada menos que algo melhor.
Soluções para questões delicadas, como a barra do Windows Media Player na barra de tarefas, tão útil, mas tão pouco utilizada, são ridiculamente simples, e igualmente eficazes. Agora, a miniatura do WMP que aparece ao se pousar o cursor do mouse sobre faz as vezes da antiga barra, deixando à mostra os comandos mais utilizados (música anterior, play/pause e próxima música).

Solução inteligente para o Windows Media Player.
Merecem destaque, ainda nesta área, as jump lists, listas contextuais que substituem, de forma primorosa, o raramente útil Documentos recentes. Agora, cada aplicativo tem seus próprios documentos recentes (até o Bloco de notas!), o que faz mais sentido e é mais útil. As jump lists aparecem tanto nos ícones da Superbar, quanto no menu Iniciar, onde são indicadas através de setas ao lado dos programas mais utilizados.

Jump list na Superbar.

Jump list no menu Iniciar.
Durante o uso diário, outros detalhes do gênero, uns grandes, outros menores, aparecem. E é um deleite deparar-se com eles, especialmente depois de um período tão grande com poucas inovações em usabilidade que o Windows passou (do 95 ao Vista).
Atalhos, pra que te quero?
Algo que sempre me questionei foi por que a Microsoft não estendia a utilização da WinKey. Afinal, já que ela enfiou goela abaixo da indústria de teclados essa tecla, nada mais justo que usá-la à exaustão, não?
Durante uma época de heavy user de teclado pela qual passei, usava muito o finado programa WinKey, da Copernic. Ele servia para criar atalhos no teclado com a WinKey. Útil. E parece que, agora, a Microsoft também constatou isso.
Experimente apertar WinKey + P, e toda aquela confusão na utilização de projetores/datashows torna-se passado.
Você deve saber que, arrastando uma janela para esquerda ou para a direita ela "gruda" na borda e passa a ocupar exatamente metade do desktop, e que fazendo isso para o topo, a janela é maximizada, certo? Agora, sabia que dá para fazer isso pelo teclado? WinKey + setas fazem o trabalho, com o plus do WinKey + seta para baixo, que minimiza a janela. Segure o Shift quando for maximizar ou minimizar, e a janela aumenta verticalmente e retorna ao tamanho original, respectivamente.
WinKey + Home minimiza todas as janelas, exceto a que estiver ativa no momento. É o atalho do engraçado Aero Shake, que é ativado clicando e segurando o botão do mouse na barra título da janela, e chacoalhando-a. Ótimo para organizar a bagunça, mantendo o que se está fazendo ativo.
Quer mais? Então aqui vai o mais genial, acho eu. A ordem dos programas na Superbar não é mera estética. O posicionamento afeta diretamente a maneira de chamá-los pelo teclado. Acompanhe o gráfico abaixo:

Atalhos da Superbar.
Pressione WinKey + 3, e o Firefox (3) abrirá. Se ele já estiver aberto, uma nova instância (janela) será aberta. Aperte WinKey + 5, e o Windows Media Player (5) abrirá. E assim sucessivamente. Genial, não?
Pequenas grandes novidades, como diria um amigo da caserna
.
Programas atualizados, enfim!
Acredite ou não, o Paint foi atualizado. E foi bem atualizado. Agora com barra Ribbon, parecida com a do Office 2007, o programa básico de edição da Microsoft, presente desde os primórdios e jamais atualizado, ganhou pincéis diferentes, redimensionador, desfazer ilimitado (acho) e outros recursos que o fazem ser uma ótima opção para edições simples e rápidas.
O mesmo aplica-se ao WordPad, que agora abre e trabalha com documentos OpenXML (*.docx)! Em termos gerais, o WordPad se parece com uma versão simplificada do Word 2007. O que, caso você não precise respeitar regras rígidas da ABNT, ou fazer trabalhos que demandem as ferramentas avançadas do melhor editor de textos do mercado, quebra o galho legal.
E a Calculadora? Quantas mudanças, quantas novas funções. Sinto que o conversor de unidades será bastante apreciado por todos, especialmente burraldos em Matemática como este que aqui escreve
.
Isso sem falar nos novos programas, como XPS Viewer (que já existia, mas era um download à parte), Sticky Notes (que, particularmente, acho que ficaria melhor sob a forma de um gadget) e o utilíssimo gravador de imagens *.iso.

Gravador de imagens nativo.
Se houve ganhos de um lado, por outro muitos programas foram limados, em prol do Windows Live Essentials. Não temos mais o Windows Movie Maker, nem alguma variação do Outlook Express. E, querer saber? Excelente isso. Eu mesmo nunca usei o Outlook Express
.
Explorer
Durante o desenvolvimento do Windows Vista, a Microsoft tentou incluir o recurso de pastas virtuais ao sistema. Quando apresentado aos beta testers, essa novidade deu um nó na cabeça de todos, e o recurso acabou simplificado em buscas dinâmicas, algo que pouca gente usa no Vista. No Windows 7, a Microsoft traz de volta o conceito de pastas virtuais, mas desta vez sob a forma de bibliotecas (Libraries).
Grosso modo, as bibliotecas são pastas que agregam pastas. Digamos que você tenha vídeos na sua pasta de vídeos, numa outra pasta que está em outra partição, e ainda num outro PC, da rede. Na biblioteca, pode-se juntar essas três pastas numa só, cada qual em seu respectivo local, mas todas acessíveis através da biblioteca, que no caso, funciona como um "HUB virtual".
O potencial das bibliotecas é enorme. O usuário pode criar novas bibliotecas a seu bel prazer (note, acima, a biblioteca Downloads, criada por mim), e acrescentar pastas às existentes de maneira bastante fácil e cômoda, através de atalhos no menu de contexto e na barra de opções do Explorer.
O Explorer... Sentiu a simplicidade dele na screenshot acima? Pois esse é o mantra: simplicidade focada em eficiência. A barra de ferramentas continua oculta, mas a imediatamente inferior mostra botões dinâmicos, que mudam de acordo com o contexto da maioria dos arquivos da pasta aberta. Está numa de fotos? Botões como Slideshow e Gravar aparecerão. Está numa de músicas? Então o Tocar tudo aparecerá. E assim por diante.
A pesquisa está melhor, e agora destaca, nos resultados, o termo buscado, e dá opções de estender a busca para o PC todo, para a Internet, ou ainda de se criar buscas personalizadas. Sem falar nos filtros, também contextuais - no caso da pesquisa de músicas, o sistema dá a opção de limitar a pesquisa ao nome das faixas, da banda, do álbum...
Screencast
Confira, em vídeo, algumas novidades comentadas acima:
(Não consegui embarcar o vídeo aqui na resolução correta, então, clique aqui para ir à página do Screencast.com, e assistir a ele.)
Finalizando...
Seria pretensioso de minha parte querer abordar todas as novidades do Windows 7. Uma porque boa parte delas já foram comentadas e esmiuçadas em oportunidades passadas, e outra porque... bom, é um sistema operacional, o maior tipo de programa para PCs que existe (acho). Em suma, o Windows 7 é ótimo, e, ratificando o que escrevi acima, tem cacife para ser o melhor Windows de todos os tempos. O sistema é rápido, responde bem a tudo, traz features novas matadoras, e dá um boost nas antigas, algumas paradas no tempo há décadas.
Se você se empolgou com os elogios, muita calma nessa hora. Como se trata de um sistema beta, erros e problemas ocorrem, são comuns. Veja este, por exemplo:
E esse é um dos menores problemas. Há softwares incompatíveis, e isso pode ser inaceitável em determinados ambiente, para determinados perfis de usuário. Dica: experimente em máquinas virtuais, ou num PC velhão, parado e sem utilidade. E aguarde a metade do ano, que é quando, espera-se, o Windows 7 será lançado oficialmente. Mal posso conter a ansiedade
.
PS: sabe o motivo do peixinho ter aparecido no wallpaper da build 7000? O peixe é da espécie Beta, bastante comum no Brasil, presente ingrato que muita gente recebe de amigo secreto. Peixe beta, sistema operacional beta... entenderam?
Quem escreveu?
Rodrigo P. Ghedin. Paranaense, 22 anos, bacharel em Direito e aficionado por informática. Windows-user desde 1996. Powered by "PC frank" (7 Ultimate) e Dell Vostro 1000 (XP Home).
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