Alguns programas gratuitos precisam de propaganda para se manter. Não os recrimino, afinal, eu também vivo de propagandas (nos blogs). Uns são super bacanas, e alertam, de forma bastante explícita, que programas de terceiros podem ser instalados, dando a opção ao usuário de fazê-lo ou não. Outros, arranjam briga por besteira e se queimam junto aos usuários. E ainda há um terceiro grupo, com poucos representantes, que simplesmente tomam posse do computador do pobre usuário - literalmente.
No último grupo, aparentemente, está o Digsby. O programa, um cliente de bate-papo e e-mails multi-protocolo, despontou com a promessa de centralizar a vida digital dos usuários, e conquistou alguns - a bem da verdade, o programa é simpático e cumpre o que promete. Gratuito, o Digsby se sustenta através de "programas patrocinadores", um punhado (seis, para ser mais exato) deles oferecidos durante a instalação.

Um dos seis crapwares na instalação do Digsby.
Mas não só isso. O Lifehacker identificou, nos termos de serviço do programa, uma cláusula, no mínimo, absurda. A cláusula 15 diz que o usuário aceita ceder ao Digsby "processamento, energia elétrica e banda de Internet" para realizar pesquisas diversas quando o computador estiver ocioso, as quais revertem-se renda ($) para o Digsby:
15. USAGE OF COMPUTER RESOURCES.
You agree to permit the Software to use the processing power of your computer when it is idle to run downloaded algorithms (mathematical equations) and code within a process. You understand that when the Software uses your computer, it likewise uses your CPU, bandwidth, and electrical power. The Software will use your computer to solve distributed computing problems, such as but not limited to, accelerating medical research projects, analyzing the stock market, searching the web, and finding the largest known prime number. This functionality is completely optional and you may disable it at any time.
Em outras palavras, eles geram dinheiro usando o seu PC quando ele está ocioso, parado. Atualmente, o Digsby liga-se ao Plura para fazer pesquisas na Internet sem o consentimento do usuário. Existe uma forma de desabilitar isso, mas fica no lugar menos óbvio do mundo: menu Support Digsby. Acredito que esse não seja um caso de falta de usabilidade acidental...

Support Digsby.
Outro detalhe que complica a vida do Digsby é a justificativa de que esses experimentos comerciais são feitos como forma de garantir que as contas da empresa sejam pagas no fim do mês. Só que, ao mesmo tempo em que precisam recorrer a táticas no mínimo duvidosas para se manterem, em paralelo têm um programa de afiliados que paga até U$ 1,00 por programa instalado. Seu eu fosse um porco capitalista, me cadastraria nesse programa
.
Por fim, o Digsby se diz ad-free, livre de propagandas, só que, recorrentemente, exibe "anúncios" de parceiros, ou mesmo pedidos para que seus usuários votem no programa em enquetes de IMs, através de uma janela de conversação que salta do nada. Pelo que consta, isso não dá para ser desabilitado. A publicidade está nos olhos de quem vê?

Publicidade camuflada do Digsby.
Imediatamente após a publicação do post no Lifehacker, os desenvolvedores do Digsby publicaram um post no blog oficial anunciando uma nova build, com mais ênfase ao módulo de uso do PC do usuário, dando ciência sobre seu funcionamento, e tornando o procedimento de desativação mais coerente. De quebra, aproveitaram para fazer uma consulta pública sobre o modelo comercial que mais agrada aos usuários. Surpresa: o atual, com seis crapwares oferecidos na instalação, mais o uso de processamento ocioso do PC, é o mais votado! A outra opção, deixar apenas um crapware na instalação, e incluir um pequeno anúncio no programa, com opção de uma versão ad-free paga, tem menos da metade dos votos da primeira. Dá para entender?
O maior problema é que, para funcionar corretamente, é necessário fornecer senhas de e-mail, programas de bate-papo e redes sociais para o programa fazer as conexões. Numa relação de confiança assim, fazer o que eles fizeram é o mesmo que chegar em casa com marca de batom na camisa. A mulher pode até perdoar, mas que ela ficará com um pé atrás, isso vai.
PS: Antes que alguém reclame do título, é só uma brincadeirinha com um dos primeiros memes/virais da Internet, o "All your bases are belong to us". Para saber mais, clique aqui
.
Quem escreveu?
Rodrigo P. Ghedin. Blogger, MVP Microsoft, acadêmico de Sistemas de Informação e bacharel em Direito.
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