A Google tem o dom de surpreender. É incrível como o tempo passa, anúncios são feitos, produtos lançados, e mesmo assim, vez ou outra, do nada, algo inesperado surge, e revoluciona. Foi assim com o Gmail, que recriou a concepção de e-mail em abril de 2004; foi assim com o orkut, que tornou as redes sociais conhecidas no Brasil na mesma época; e, por que não, foi assim com a busca, que há anos tornou-se sinônimo de Google. Hoje, a empresa de Mountain View fez de novo. O Chrome, ainda que não seja um sucesso, ainda que não apresente dados estatísticos de uso relevantes no cenário mundial, já fez um grande favor a todos nós: revolucionou. Fugiu da mesmice em que os navegadores atuais, por mais interessantes e funcionais que sejam, estão estagnados, trouxe uma concepção nova de navegar na web, onde o navegador é um mero coadjuvante, provendo uma base sólida e funcional para que o site, o serviço web, o que realmente interessa, afinal, se sobressaia. O trecho abaixo, extraído da página na qual a equipe responsável pelo Chrome explica as motivações que a levou a criar o navegador, deixa isso bem claro:
Para a maioria das pessoas, não é o navegador que importa. Ele é somente uma ferramenta que roda coisas importantes, como páginas, sites e aplicativos que fazem da web o que ela é. Assim como a versão clássica da página inicial do Google, o Google Chrome é clean e rápida. Ela te fornece o que você precisa e te leva aonde você quer ir.Ainda é cedo para mensurar o impacto dessa quebra de paradigmas, mas arrisco dizer que ele será grande.
Instalação e visual
Por ora, o Google Chrome está disponível, em estágio beta, para Windows (XP e Vista). O download do instalador, que por sua vez é parcial e demanda uma conexão à Internet para ser concluído, pode ser feito aqui. O programa já está em português do Brasil. A instalação é simples, e ao final dela, o navegador abre e, de cara, pergunta ao usuário se deseja importar dados de outros navegadores já instalados na máquina. Pode dizer não, pois isso é possível posteriormente. No Vista, o visual do Chrome é matador: glass no topo da janela, ícones sóbrios e muito bonitos. Confira:
No XP, a diferença, óbvia, reside na ausência do efeito glass (transparência). De qualquer maneira, o visual é agradável também. A opção por colocar as abas no topo da janela mostra-se muito acertada. Casada com a economia de botões na barra de tarefas, a sensação que se tem é de discrição e funcionalidade. Há muito a ser dito sobre o sistema de abas, confira mais adiante. No geral, é o que escrevi ali em cima: o visual do Chrome foi feito para dar ênfase ao conteúdo. Abas
Já que toquei no assunto, vamos falar sobre as abas. O posicionamento das abas difere do que estamos acostumados a ver. Ao invés de ficar abaixo da barra de ferramentas, elas foram postas acima. Não há título na janela do Chrome, há abas. Atalhos já padronizados no segmento, como Control + T para abrir uma nova aba, e Control + W para fechá-las, funcionam. Usuários vindos de outros navegadores não terão problema algum; pelo contrário, se sentirão bem confortáveis com a nova sistemática. No tocante ao visual, as abas lembram aquelas orelhas de pastas de arquivo. É possível reorganizá-las com o mouse, arrastando e soltando, e além do atalho no teclado, pode-se abrir novas abas clicando no símbolo "+", no lado direito delas, tal qual ocorre com o Internet Explorer.
Não há a criação de novas janelas. Todos os links, independente do atributo usado (target="_blank", por exemplo), abrem em novas abas. Nada impede o usuário, porém, de criar novas janelas. Além do conhecido Control + N, arrastar a aba e soltá-la no desktop causa o mesmo efeito. E, o que é mais legal, o inverso também é possível! Ou seja, pegar uma janela, e arrastar a aba para outra janela, mesclando duas numa só.
Outra maneira disponível é duplicar a aba. Para tal, clique com o botão direito numa delas, e no menu de contexto, clique na opção Duplicado. Uma nova janela, contendo apenas a aba duplicada, surgirá. Última sobre as guias: é possível fechar "guias-filhas" com um clique, a exemplo do que ocorre no Internet Explorer 8. Não existem cores para identificá-las, o que é um ponto a menos em relação à solução da Microsoft, mas funciona, e funciona bem. Clique com o botão direito na "aba-mãe", e no menu de contexto, clique na opção Fechar guias abertas por essa guia. Outras opções referentes ao fechamento de guias, como fechar todas à direita, também estão disponíveis.
Nova aba
Novas abas abertas trazem um resumo do que o usuário, em regra, costuma acessar. Confira uma imagem, e abaixo, as explicações:
No topo, fica a barra de favoritos. Abaixo e à esquerda, ocupando boa parte da tela, uma espécie de Speed Dial, função que nasceu no Opera cuja função, lá, é mostrar sites previamente escolhidos pelo usuário, mas no que Chrome, exibe os sites mais visitados. No espaço restante, à direita, temos três blocos: o primeiro traz a pesquisa no histórico; o segundo, favoritos adicionados recentemente; e o terceiro, abas fechadas recentemente. A Microsoft está fazendo algo parecido com isso no IE 8, mas lá ainda há a sensação de "vazio", inacabado. É certo que tal sensação sumirá com a versão final, mas por ora, considerando as duas versões beta, no momento o Chrome está na dianteira. Barras de ferramentas
Outro ponto onde o Chrome brilha é na organização minimalista e funcional, duas características que raramente se encontram, e que são, acho eu, o Santo Graal de todo designer.
No navegador inteiro, existem apenas cinco botões, todos concentrados na barra de ferramentas. Além dos tradicionais botões de navegação (avançar, voltar e recarregar), há outros dois, um para controlar a página atual, e outro para personalização e configuração do navegador. Esses dois são, de longe, os mais importantes. O botão que controla a página atual traz o que, em regra, encontra-se no menu Exibir, em navegadores "normais", com o plus das abas. Há duas opções inovadoras, as quais comentarei mais abaixo, mas no geral, e fora essas duas opções, não há nada revolucionário. Aqui, também podemos visualizar algo que caracteriza um software beta: problemas. No item Desenvolvedor, clique em Console JavaScript, e tcharam! Interface do Safari, navegador da Apple para o qual o WebKit foi originalmente desenvolvido. Isso será corrigido até a versão final, claro. O outro botão, que permite configurar e personalizar o Chrome, traz coisas interessantes. A primeira opção faz com que a barra de favoritos apareça sempre, ao invés de só nas novas abas. Na seqüência, temos o histórico de downloads e de navegação, ambos muito elegantes e fáceis de usar, além de contar com uma poderosa e amigável busca (que surpresa, não? :) ).
A seguir, temos a opção de limpar dados de navegação, algo que já se tornou obrigatório em qualquer navegador, e também opções de importação de dados de outros navegadores, a mesma que surge na primeira vez que se usa o Chrome. O item Opções, próximo da lista, traz mais coisas interessantes. Nele, além das configurações de praxe, há opções bem claras e diretas relacionadas a SSL 2.0, Gears (que vem por padrão no navegador), proteção anti-phishing, etc. São recursos relativamente novos em navegadores concorrentes, mas que já figuram na primeira versão do Chrome. Dentre elas, uma chamará a atenção dos mais desconfiados. Essa aqui:
Envio de estatísticas de uso anônimas para a Google. Neste link (o Saiba mais) há mais informações, e se o usuário não concordar com tal intromissão, basta desmarcar a checkbox. Para quem receia que a Google faça a coleta dos hábitos de navegação dos usuários do Chrome, uma notícia tranquilizadora: o navegador é open source. Você pode se perguntar: "E...?". E... daí que, se houver algum código espião instalado, cedo ou tarde algum desenvolvedor descobrirá, e o trará à tona, e... bom, será uma mancha difícil de sair no histórico da Google. Portanto, e apostando que a empresa não correria tamanho risco à toa, as chances de código de espionagem estar embutido no Chrome são muito improváveis (para não dizer impossíveis). Barra de endereços
Dentro da barra de ferramentas, temos a importante barra de endereços. Afinal, ela é o ponto de partida para tudo dentro de um navegador. A Google preferiu concentrar tudo numa barra só, eliminando a também comum barra de pesquisa, à direita da principal. Ao se digitar um termo na barra, ela varre o histórico de navegação, e apresenta endereços relacionados ao termo. Funciona como a Awesome bar do Firefox 3, ou seja, os termos não precisam ser seqüenciais para serem mostrados (explicação mais detalhada). A pesquisa no mecanismo de busca funciona por ali também, basta selecionar o último item dos que aparecem (Pesquisar [termo] no Google). Além dessas duas possibilidades, ainda é possível fazer uma busca no histórico do navegador, direto da barra de endereços.
Quer mais? No exemplo acima, pressionando a tecla Tab, pode-se pesquisar por determinado termo dentro do domínio! Como previ, aos poucos os sistemas de busca internos serão extintos, em prol de ferramentas universais como o Google. Outro destaque, também chupado do IE 8, é o destaque do domínio em que o usuário se encontra, técnica eficiente na guerra contra os phishing scams.
Por fim, embora o Google seja o mecanismo de busca padrão, pode-se alterá-lo, incluir novos, e excluir os existentes. Para tal, clique com o botão direito do mouse na barra de endereços, e no menu de contexto, clique na opção Editar mecanismos de pesquisa... Ficou um pouco escondido (por que será?), mas enfim, está lá.
Por fim, vale citar a pesquisa dentro de uma página, acessível via atalho Control + F. Funciona bem, permite o uso do atalho F3 para avançar ao próximo termo, e Shift + F3 para voltar, destaca os termos na página, e exibe a quantidade de ocorrências existentes. Em suma, perfeita.
Navegação
É notável a estúpida velocidade que o Chrome consegue entregar ao usuário. A combinação da engine WebKit com o interpretador JavaScript V8 faz com que páginas, por mais complexas que sejam, sejam montadas na tela de maneira instantânea. Quando se usa JavaScript efetivamente, algo comum em qualquer site web 2.0, a diferença é ainda mais notável. Confesso que via com alguma restrição as promessas feitas ontem, de que o V8 seria uma evolução descomunal frente aos interpretadores existentes, mas tais restrições caíram por terra quando abri o Gmail, o Google Reader, quando enviei uma imagem pela ferramenta nativa do WordPress... É rápido, de verdade. Mesmo em páginas estáticas, o WebKit mostra que tem poder de fogo para bater de frente com Gecko, Trident e Presto, engines do Firefox, Internet Explorer e Opera, respectivamente. E isso me põe uma grande interrogação na cabeça: por que o Safari 3 Beta, quando lançado para Windows, saiu tão ruim? Até agora não encontrei página incompatível com o Chrome, nem mesmo problemas de renderização, logo, a única explicação plausível que me vem à mente é uma pressa desnecessária da Apple em liberar o beta - por pior que ele estivesse. Mas, isso é passado, voltemos a falar do Chrome... No Acid2, o Chrome passa sem problemas. No Acid3, marcou 76 pontos, número alto para os padrões atuais. O que importa, mesmo, é que a navegação é suave, e as incompatibilidades, praticamente inexistentes.Aplicativos
É possível transformar aplicações web em espécies de aplicativos normais. Sim, o conceito é o mesmo do Mozilla Prism. Para "criar" um aplicativo, na página do serviço, clique no botão da página, e em seguida, na opção Criar atalhos de aplicativos... Uma janela surge, perguntando em quais locais o atalho deve ser colocado (desktop, menu Iniciar e barra Início Rápido). Marque as opções desejadas, e clique em OK.
Ao iniciar o aplicativo através do link criado, a janela aparece simplificada, sem abas, apenas com o site rodando. O ícone na barra de tarefas do Windows também muda, passa a ser o favicon do site. Integrando-se com o Gears, muitos aplicativos podem se tornar totalmente offline. Navegação anônima
Outra novidade do IE 8 incorporada pelo Chrome, a navegação anônima é fácil de ser usada. Clique no botão de páginas, e em seguida, na opção Nova janela anônima... Uma nova janela aparecerá, contendo uma mensagem que explica o que é a navegação anônima. Nela, nada do que for feito será gravado: histórico, cookies, cache, etc. Uma maneira fácil de identificar a janela anônima é através do "espião" que aparece no canto superior esquerdo da janela.
Fechou a janela, foram-se os dados. Simples assim. Gerenciador de downloads
Há um gerenciador de downloads simples. Infelizmente, nada de download de múltiplas fontes, mas pelo menos no quesito organização, está tudo muito bom. Ao iniciar um download, uma barra surge no rodapé da página, mostrando o nome do arquivo, uma barra de progresso em espiral, e o tempo restante. Clicando na seta à direita do blog, pode-se configurar a abertura automática do arquivo, cancelar o download, e ainda abrir a pasta para a qual ele está sendo copiado.
Na área específica de downloads, acessível através do ícone de personalização e configuração do navegador, há mais detalhes, bem como o histórico de downloads. Confira:
Consumo de memória
Uma das grandes inovações do Chrome é o gerenciamento de memória. Ao invés de um único processo para todo o navegador, no navegador da Google cada aba corresponde a um processo autônomo. Ele está consumindo muita memória, ou deixando o sistema lento? Vá ao gerenciador de tarefas do navegador, e mate-o. O gerenciador é acessível através do atalho Shift + Esc.
O link Estatísticas para nerds ( :P ), que pode ser acessado diretamente no navegador através do endereço about:memory, traz mais detalhes sobre o consumo de memória, e inclusive compara com o consumo de outros navegadores que porventura estejam abertos no momento.
A liberdade que a divisão do navegador em múltiplos processos dá ao usuário é imensurável. Torna virtualmente impossível problemas de estouro de memória, e caso um site "crashe", seja por um script mal escrito, seja por ser muito pesado, basta matá-lo e continuar usando o navegador como se nada tivesse acontecido. É fato que o consumo é alto, mas é um preço que, particularmente, "pago" de bom grado, tendo em vista a já citada liberdade e, claro, a qualidade que o Chrome possui. Apesar disso, muitos irão reclamar, e não será surpresa se, nos próximos releases, a Google dar uma enxugada no consumo. Ferramentas para desenvolvedores
Para começar, o visualizador de código-fonte é um dos melhores dentre os navegadores, e, acho eu, o único com contador de linhas.
Ainda no código-fonte, é possível acessar qualquer código-fonte sem que se entre no site. Para tal, basta digitar a URL view-source:http://www.site.com.br/. Há, ainda, um depurador e um console JavaScript. Este último é bastante interessante; além de erros JavaScript, é possível visualizar, em tempo real, elementos selecionados do código-fonte na página aberta:
Todos os recursos para desenvolvedores estão acessíveis no ícone da página, opção Desenvolvedor. O console JavaScript também pode ser aberto selecionando-se um elemento da página, clicando com o botão direito, e indo em Inspecionar objeto. 